Está cada dia mais difícil localizar benzedeiras em cidades do porte de Bauru, apesar de quase todo bairro da cidade contar com algumas destas figuras. A queda no número de benzedeiras é admitida pelas próprias mulheres que desempenham esta função porque também está cada dia mais difícil encontrar mulheres jovens interessadas em seguir a tradição.
Sem herdeiras interessadas neste patrimônio, a principal forma de continuidade da tradição - a transmissão oral - fica inviabilizada. A pesquisadora em religiões populares Dalva Aleixo reconhece que muitas pessoas que talvez tivessem talento para participar da arte adivinhatória de benzer estão “migrando†para outras áreas.
“Muitas vão para a Igreja Messiânica ministrar o johrei (prática de imposição de mãos), outras vão para a Seicho-No-Ie, outras para o budismoâ€, atesta Aleixo. Ela diz que até mesmo alguns evangélicos dizem ter o dom da revelação. “Eles põem a mão na Bíblia e ‘te benzem’, mas usam outro nome para isso. Na essência é a mesma coisaâ€, explica.
Para a pesquisadora, a situação não seria tão grave quando esta migração acontece para religiões que cultuam os ancestrais. “Nossa preocupação enquanto pesquisador é quando esse talento se perdeâ€, completa.
Ela acredita que os elementos da cultura popular nunca acabam, mas se transformam. “Mesmo sem transmissão oral, as pessoas talvez migrem para outras possibilidades de expressão religiosa. Afinal, o transe mediúnico acontece na igreja carismática e nas neopentecostais. Mas a não-transmissão me preocupaâ€, revela.
Aleixo, que também é professora da Unesp de Bauru, lembra que a perda de patrimônio cultural por falta de transmissão acontece até mesmo em comunidades mais “fechadasâ€, como as indígenas.
“A prática da pajelança se mantém na umbanda, mas não existe mais nas aldeias. Mulheres que vieram da cultura indígena atuam na cidade, incorporando para benzer, e acabam preservando uma cultura que na aldeia já não existe mais. Lá, os pajés estão sendo substituídos pelos pastoresâ€, atesta.
A pesquisadora, que em 1989 realizou o trabalho denominado “As artes adivinhatórias em Bauruâ€, lembra que as benzedeiras revelam uma certa tristeza por não terem para quem transmitir sua tradição. “Em 1989 eu entrevistei 12 benzedeiras e, destas, apenas uma ou duas estão vivasâ€, diz. Para Aleixo, várias potenciais herdeiras desta tradição sofrem pressões muito fortes de suas famílias para se tornarem evangélicas.
Herança
Nem sempre a falta de interesse dos jovens pela tradição das benzedeiras é a causa da falta de transmissão oral da prática. A benzedeira Francisca Maria de Jesus, que atende crianças no Parque São Geraldo, região noroeste da cidade, diz que já recebeu “pedidos†de pessoas que queriam aprender o ofício, mas ela se recusou a ensinar. “Só ensino se for escrevendo num papelâ€, diz, sem explicar o motivo da resistência.
Resistência, aliás, que se enfraqueceu depois que a benzedeira ouviu uma oração que ela interpretou como um aviso. Segundo ela, a oração tinha os seguintes dizeres: “Quem ver e não aprender; quem sonhar e não ensinar; na hora da morte três assopros há de darâ€. Mesmo sem explicar o enigmático sentido de tais frases, dona Francisco reviu sua posição: “Agora vou ensinarâ€, disse.
Já a mãe-de-santo Terezinha Silva Jeremias, que mantém um terreiro de umbanda nas proximidades da Vila Independência, não se preocupa com a perda de seu patrimônio religiosos. “Tenho uns oito filhos-(de-santo) e minha tradição vai seguirâ€, garante.