Economia & Negócios

Artesanato terá incentivo federal

Lilian Venturini
| Tempo de leitura: 4 min

As mãos traduzem a criatividade. Cada peça carrega a individualidade não alcançada em produções de escala industrial. Resultado de habilidade e originalidade, o trabalho do artesão começa a ganhar mais destaque. Principal ou única fonte de renda da família de parte destes profissionais, hoje eles são considerados empresários. As oportunidades e a organização, porém, estão longe das idealizadas por qualquer setor da economia que almeja um espaço digno no mercado. A partir deste ano, o Ministério do Desenvolvimento promete mudar o cenário.

A profissão seguida por pelo menos 9 milhões de pessoas, segundo estimativas não oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), será tema do Fórum Nacional do Artesanato Brasileiro, em novembro, em Brasília. O evento pretende reunir representantes do setor de todos os Estados brasileiros para discutir oportunidades e elaborar políticas públicas para levar o artesanato local a outras regiões e países do mundo.

Em Bauru, 600 estão cadastrados na Superintendência do Trabalho Artesanal nas Comunidades (Sutaco), que, de acordo com dados do órgão, reúne ainda 41 mil artesãos no Estado.

O artesão João Albano Gomes não irá a Brasília, mas de sua empresa, no Jardim Pagani, ele sabe o que sugerir para melhorar o setor. Profissional do setor há 20 anos, Gomes cria móveis e peças a partir de restos de madeira. Ele e mais sete familiares trabalham para garantir a única fonte de renda da família. “O meu trabalho é sério como qualquer outro. Preciso pensar como uma empresa, mas acho que precisamos de mais apoio para divulgar o trabalho e de mais união entre os artesãos”, lembra.

A diretora do Departamento de Micro, Pequenas e Médias empresas do MDIC, Cândida Maria Cervieri, já sabe disso. Ligada ao Programa de Artesanato Brasileiro (PAB), desenvolvido pelo ministério, Cervieri afirma que o PAB atualmente trabalha em três fases: capacitação do artesão, realização de feiras e eventos para comercialização dos produtos e definição de rotas de artesanato - colocar os produtos em pontos turísticos da região. Por enquanto, regiões do Norte e Nordeste do País são as mais atendidas pelo projeto.

Após o fórum, o ministério espera elaborar um cadastro com os artesãos do País, criar uma carteira nacional para este profissional e coordená-lo. “Queremos ajudar a estruturar núcleos produtivos. Temos de fazer pesquisas de mercado (para saber onde e o quê devem vender), verificar os mercados interno e externo e criar possibilidades para formarem cooperativas”, exemplifica.

O público-alvo dessas ações seria o artesão, cuja profissão é a principal fonte de renda da família. “O artesanato por si só é expressivo e gera renda para o País. É uma forma de inclusão social”, acredita Cervieri. Em 1999, por exemplo, o MDIC estimava uma movimentação de R$ 28 bilhões por ano.

Resultados

As conseqüências das ações, no entanto, são a médio e longo prazos. As discussões de novembro devem chegar no ano que vem às esferas estaduais para, então, ganhar formas concretas, de acordo com as previsões da diretora do departamento do MDIC.

Mesmo sem elas, o artesão Oscar Martins resolveu arriscar. Há 35 anos ele faz bolsas, cintos e sandálias em couro. Trinta deles, Martins dedica à loja que mantém no Centro da cidade. O apreço pelo artesanato foi transferido para os três filhos, que também trabalham com ele, e para uma nova loja. Há menos de cinco meses Martins decidiu explorar a avenida Getúlio Vargas e ampliar o negócio. “Ali promete muito.”

A empolgação do artesão vem acompanhada de cautela. Assim como João Albano, Martins sustenta a família com suas peças e não pode descuidar da renda, melhor anos atrás. “Hoje ganho só o sustento, não tem sobra. Já ganhei bastante, mas hoje só o básico. Tem muito imposto”, lamenta.

É justamente esta a preocupação do MDIC. A produção em menor escala e os altos custos para manter uma pequena empresa muitas vezes desmotivam o artesão e são um convite à informalidade. A diretora Cândida Cervieri acredita que, hoje, menos de 1 milhão dos artesãos trabalham formalmente. “A informalidade e a falta de estruturação são as principais dificuldades para o artesanato”, ressalta.

Ainda assim, João Albano e Oscar Martins continuam firmes e sem segredos milagrosos para se manterem no ramo. “Se não correr atrás, não se consegue nada”, diz Albano. “Tem de criar e fazer sempre algo diferente. O resto é trabalhar e acordar cedo”, completa Martins.

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