No ano de seu bicentenário, os 12 profetas esculpidos em pedra-sabão por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), e que adornam a área externa do santuário Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas (MG), passam por inédito processo de limpeza e restauração.
A recuperação, iniciada em julho, tem como alvo o principal problema de conservação das esculturas: a ação de microrganismos, que liberam ácidos corrosivos e têm raízes que causam pequenas fissuras nas pedras.
Os liquens (associação de fungos e algas) estão sendo combatidos por meio da pulverização de um composto químico (biocida) nas estátuas. Os liquens se alimentam da substância e morrem.
Segundo o geólogo Marcos Tannus, do Cetec (fundação de pesquisa do governo mineiro), não é possível prever o que ocorreria se a remoção dos microrganismos não fosse feita agora, apenas que o processo de deterioração iria se intensificar. A degradação das obras - visível na chamada “lepra da pedra, pequenos buracos na superfície das estátuas- também é agravada por causa de vandalismo e da exposição ao sol e à chuva. Coordenado pelo Cetec, o estudo atual incluiu uma ultra-sonografia dos profetas, que concluiu que as pedras não estão degradadas internamente.
Os principais problemas identificados nas estátuas foram contaminação biológica, fissuras, descoloração e perda de material superficial. O processo de retirada dos liquens e os efeitos sobre a estrutura dos profetas serão avaliados a cada três meses, durante um ano.
A avaliação inicial mostrou que os liquens estão secando e se descolando das pedras. Todo o trabalho custou R$ 110 mil e está sendo bancado pelo Monumenta, programa de recuperação de sítios históricos do Ministério da Cultura. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), é a primeira vez que os profetas passam por uma intervenção dessa natureza. Há registros de restauração em 1946, 1949, 1957 e 1974, quando houve a introdução do projeto paisagístico de Burle Marx (1909-1994).
Em 1987, as esculturas estavam quase totalmente cobertas por liquens. Houve uma limpeza com outra substância (o anti-séptico timol), mas as colonizações voltaram três anos depois. Em 96, foi feito um teste com o biocida na aba do manto do lado direito do profeta Abdias. Agora, resultados comprovados, será feita a pulverização em todo o conjunto.
A limpeza dos profetas não pôs fim a uma polêmica de mais de 30 anos: a transferência ou não das obras para um abrigo climatizado e a substituição dos originais por réplicas. A medida teria como objetivo evitar a ação de vândalos e proteger as peças das intempéries.
Em 2003, o ministro Gilberto Gil (Cultura) defendeu publicamente a transferência quando lançou o projeto do Museu de Congonhas (Museu Aleijadinho), ainda no papel. Para o coordenador nacional do Monumenta, Luiz Fernando de Almeida, a discussão sempre foi tratada com “posições muito apaixonadas”.
Em 2003, o ministro Gilberto Gil (Cultura) defendeu publicamente a transferência quando lançou o projeto do Museu de Congonhas (Museu Aleijadinho), ainda no papel. “Com mais 20 ou 30 anos expostas ao tempo, elas estarão definitivamente comprometidas’’, disse Gil na ocasião. Para o coordenador nacional do Monumenta, Luiz Fernando de Almeida, a discussão sempre foi tratada com “posições muito apaixonadas’’.
“Queremos trabalhar essa questão em um campo mais técnico’’, disse. Biocida A escolha do composto químico para a limpeza das estátuas foi resultado de oito anos de estudos. Foram testados quatro biocidas (substâncias que inibem o crescimento de microrganismos). O escolhido é um derivado do ácido benzóico, usado como conservante de bebidas, anti-séptico e na indústria de corantes. Segundo os técnicos, o produto não é tóxico e não é caro.