A ala majoritária do Partido dos Trabalhadores (PT), liderada pelos governistas, pode experimentar, na eleição pelo comando interno, no próximo domingo, a necessidade de disputar pela primeira vez na história da legenda o segundo turno para continuar ditando as regras.
A presidente municipal da legenda, Estela Almagro, acredita em reeleição de sua chapa, Campo Majoritário, pela terceira vez e sem sobressaltos. Mas ela admite que o mesmo pode não acontecer na disputa pela estrutura nacional da sigla que tem a estrela como símbolo.
Mas seu concorrente local, o sindicalista Roque Ferreira, não só vê dificuldades do grupo majoritário vencer na eleição de domingo como aposta na falta de quórum para a confirmação do resultado das urnas. Na prática, Ferreira vê na crise envolvendo denúncias de corrupção ambiente amplamente desfavorável à ida dos militantes às urnas, por protesto, revolta ou desmotivação.
Conforme o estatuto, se pelo menos 20% dos 800 mil filiados em nível nacional não aparecerem para votar, será necessário refazer o processo através de segundo turno. “O Campo Majoritário está fazendo um esforço brutal para dar quórum. Mas a eleição corre sério risco de não contar com os 160 mil filiados necessários para a confirmação do processo no domingo. A não ser que eles multipliquem o oferecimento de Kombis e aumentem os espetos de carne para oferecer churrasco aos militantes que não têm vida orgânica”,
A presidente municipal vai às urnas mais otimista. A despeito da crise nacional, Estela tem, inversamente, ampla oportunidade de se manter no comando da legenda pela terceira vez consecutiva para cumprir mandato de três anos. Ela também aposta na vitória da ala governista, mesmo em meio à contabilização dos prejuízos causados pela crise de denúncias contra o governo Lula.
Por sinal, apesar da crise envolver integrantes do comando nacional da ala, da qual Estela é simpatizante, a disputa em Bauru tende a ser a mais tranqüila dos últimos anos. Já em Brasília, Almagro admite que, pela primeira vez na história da legenda, o presidente nacional não seja confirmado no primeiro turno. “Estamos passando por um momento delicado e, pela primeira vez, não é impossível que a ala majoritária, ligada ao governo, tenha que confirmar a reeleição em segundo turno. Não será tão fácil como das outras vezes conquistar a maioria suficiente para definir já metade mais um dos votos a favor da chapa do Ricardo Berzoini”, avalia, em referência ao ex-ministro da Previdência, candidato a presidente na chapa Campo Majoritário.
José Dirceu
Sobre a permanência do ex-ministro José Dirceu na chapa majoritária, a presidente municipal considera acertada a manutenção do deputado federal no grupo. “A pressão para a saída do Dirceu da chapa majoritária era mais um reflexo da tentativa de grupos minoritários de tentar tirar proveito da crise pegando carona na oposição. Se provar irregularidade, cassa o mandato e expulsa. Mas até agora foram falas e falas de denúncias. Não há razão para pré-julgar retirando o ex-ministro da eleição do partido”, opina.
Em nível estadual, o grupo integrado por Estela tenta a reeleição de Paulo Frateschi, junto com Berzoini na chapa nacional. Roque Ferreira integra a chapa Terra, trabalho e soberania e apóia a socióloga Misa Boito no Estado e o economista Markus Sokol na eleição federal do PT. Em âmbito nacional, a legenda conta com sete candidaturas.
“O grande problema é que o campo majoritário está desarticulado. A crise está esgarçada na ala. E nós não estamos fazendo do programa de eleições diretas o nosso último e único objetivo. Ao contrário, estamos aproveitando o PED para chamar a atenção da militância para o processo de mudança do PT. O passo mais importante neste ano como discussão é relançar o manifesto de fundação do PT, que significa romper com esse processo atual e retomar as bandeiras fundamentais do partido que foram esquecidas”, avalia Roque Ferreira.
O sindicalista reconhece a dificuldade em conquistar a maioria. “Somos de uma ala minoritária mas que não sucumbiu a esse processo de abandono das nossas bandeiras. Na eleição de domingo, o PT vai enfrentar os efeitos negativos de terem filiado militantes de baciada a partir de trabalho de gabinetes do governo. Milhares de filiados não têm vida orgânica e não mostram interesse em votar, muitos estão revoltados com a crise e uma parte assinou as fichas e nem sabe o que é PT”, aponta.