Economia & Negócios

Gasto com gasolina representa até 10% do orçamento familiar

Lilian Venturini
| Tempo de leitura: 4 min

Desde abril, o carro da auxiliar administrativa Paula Karina Martins “enfeita” a garagem de sua casa porque apenas a gasolina levava 50% de sua renda embora. Em números não tão altos como os dela, o levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que, em agosto, apenas a gasolina representou 4,91% dos gastos das famílias paulistanas, podendo chegar a 10% conforme a renda. Com o aumento do último sábado, a gasolina deve passar a ter ainda mais peso no orçamento. Para fugir dele, o jeito será mudar os hábitos.

Os números do órgão refletem o custo médio do gênero em todas as famílias, sem considerar a renda individual. Ontem, o Dieese não tinha a porcentagem dos gastos com gasolina de acordo com a renda, mas confirmou os diferentes impactos de acordo com a classe econômica. Como exemplo, o órgão lembrou que famílias com renda igual a R$ 377,00 gastam 10,79% do orçamento com transportes de modo geral; 7,40% seria apenas transporte coletivo. Já em rendas mensais de R$ 2.800,00, os gastos são de 17,77%, sendo 14,59% com transporte individual.

Segundo o economista Reinaldo Cafeo, mas famílias com renda de dez salários mínimos que usam constantemente o veículo, a gasolina pode representar 10% em média dos gastos totais. “Agora (com o último aumento), pode subir para 11%”, lembra. Pode parecer pouco, mas quem não teve aumento igual de salário terá que repensar os gastos.

O reajuste de 10% da gasolina nas refinarias traduziu aumento médio de 8% nas bombas dos postos de Bauru. Os antigos R$ 2,28 passaram para R$ 2,45 o litro, em média. Os cerca de R$ 0,17 podem motivar desde os cortes com supérfluos até dinheiro a menos na poupança.

“A cada aumento, há alterações nos hábitos das pessoas. Elas têm que ‘apertar o laço’. Daí a opção é andar menos (de carro) ou deixar de andar”, lembra o pesquisador do Núcleo de Estudos de Gestão e Comportamento no Trânsito (Negetran) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Archimedes Raia Júnior.

Foi o que fez Paula Martins. Agora, ela só usa o carro nos fins de semana e para trabalhar usa o transporte coletivo, já que recebe vale-transporte. Com o novo preço da gasolina, o veículo vai sair ainda menos da garagem. “É duro. Tem o carro para facilitar a vida, mas acaba não facilitando nada”, lamenta.

Segundo o pesquisador da Ufscar, normalmente as opções mais escolhidas no momento de economizar com transporte são andar menos, andar a pé, de bicicleta, de moto e, agora, os carros bicombustíveis. De acordo com o professor, o transporte coletivo seria o menos escolhido. “Nos últimos 20 anos, a demanda por este tipo de serviço caiu 25% no País, devido ao alto custo ou à falta de qualidade oferecida”, explica Raia.

Ainda assim, as contas no fim do mês levaram a auxiliar administrativa Elaine Cristina Pereira a optar pelos ônibus circulares. Como recebe vale-transporte, percebeu que deixaria de gastar R$ 107,00 por mês - com a gasolina a R$ 2,45 -, quase 20% do salário, se deixasse o carro em casa. “É muita diferença. Tive que abrir mão da comodidade”, afirma.

Como sugestão, Archimedes Raia Júnior lembra ainda a possibilidade de “compartilhar o carro”. Pesquisas do Negetran mostram que cada veículo no Brasil leva apenas 1,5 ocupante. “Isso é agravante para o trânsito. O brasileiro não tem costume de compartilhar o carro”, lembra.

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Mais conseqüências

Os reflexos do aumento da gasolina e do diesel nas refinarias vão ultrapassar os dígitos marcados pelas bombas. Como grande parte do produto é transportada pela rodovia, os custos maiores com combustíveis devem chegar ao consumidor dentro de pelo menos 90 dias, segundo as estimativas do economista Reinaldo Cafeo.

Os efeitos não serão imediatos devido à deflação dos últimos dois meses, mas virão aos poucos. “Deflação indica sobra de mercadoria. Enquanto tiver estoque não há reflexo. Não se observa de imediato, mas (o trabalhador) perde poder de compra aos poucos”, ressalta.

Nos produtos perecíveis devem começar os aumentos, já que a capacidade de estoque é menor. Para a inflação, o reajuste, de acordo com o economista, deve ser em torno de 0,5 ponto percentual.

As conseqüências, entretanto, não param por aí. O aumento do consumo do álcool e o fim da safra da cana no Centro-Sul, entre outubro ou novembro até março, devem elevar o preço do combustível, ajudado também pelo reajuste da gasolina.

A assessoria de imprensa da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) disse que existe a tendência de aumento nas usinas, mas não precisou quando ou quanto.

O proprietário de uma rede de postos da cidade, Edvaldo Tuschi, já vislumbra novos aumentos. “O álcool vai aumentar em breve e a gasolina (que leva 20% deste combustível) deve ficar em torno de R$ 2,49”, acredita.

Com Agência Estado

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