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BC reduz Selic para 19,50% ao ano

Por Ney Hayashi da Cruz | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - Após promover o mais longo ciclo de aperto monetário dos últimos anos, o Banco Central (BC) promoveu ontem, pela primeira vez em 17 meses, um pequeno corte nos juros: o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual.

A decisão contou com o apoio unânime da diretoria do BC. “Avaliando que a flexibilização da política monetária neste momento não compromete as conquistas obtidas no combate à inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, reduzir a taxa Selic para 19,50% ao ano”, disse nota divulgada no início da noite de ontem.

A queda dos juros era amplamente esperada por empresários, analistas de mercado e membros do governo, embora muitos defendessem um corte mais agressivo. Em dezembro - há nove meses, portanto -, o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia dito à bancada do PT no Senado que esperava para breve uma redução, possivelmente ainda no primeiro trimestre de 2005. De lá para cá, o BC não só não reduziu os juros como continuou a aumentá-los. A taxa, que estava em 16% ao ano em setembro de 2004, chegou a 19,75% em maio deste ano e só foi reduzida ontem. Nunca, desde a implantação do regime de metas de inflação no País, em 1999, os juros haviam sido elevados nove meses seguidos.

Já um corte na taxa Selic não ocorria desde abril do ano passado. Naquela ocasião, os juros passaram de 16,25% ao ano para 16%. A folga na política monetária ajudou a impulsionar a economia, que, em 2004, cresceu 4,9%. Neste ano, a estimativa oficial é de uma expansão de 3,4%.

Além de encarecer o crédito, desestimulando investimentos das empresas e freando o consumo das famílias, a alta dos juros também tem forte impacto nas contas públicas. Isso acontece porque metade da dívida de União, Estados, municípios e estatais é corrigida pela Selic - logo, quanto mais elevada a taxa, maiores os gastos do governo com encargos.

Entre agosto de 2004 e julho de 2005, meses bastante afetados pelo aperto promovido pelo BC, os gastos do setor público com juros somaram R$ 148,3 bilhões, R$ 20,2 bilhões a mais do que o registrado nos 12 meses anteriores. Desde a posse de Lula, em janeiro de 2003, o Copom se reuniu 33 vezes. No período, a Selic foi elevada em 11 oportunidades, reduzida em 10 e mantida em 12.

A expectativa do mercado é que a queda de ontem seja apenas a primeira de uma série. Segundo empresas de consultoria e bancos consultados pelo BC, estima-se que a taxa Selic seja reduzida para 18% ao ano até dezembro. Menos otimista, o núcleo político do governo espera queda para 18,50%.

Inflação e crescimento

Nos últimos meses, a inflação, medida por vários índices, deu fortes sinais de queda. Isso reforçava a expectativa de que o BC pudesse reduzir logo a taxa Selic.

Em relação ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), por exemplo, as projeções feitas por analistas se aproxima, cada vez mais, dos objetivos do governo. Segundo pesquisa do próprio BC com bancos e consultorias, espera-se que a alta do índice fique em 5,2%, bem perto dos 5,1% fixados como meta. Já o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) - que inclui não só o varejo, mas também o atacado - registrou variação negativa nos últimos quatro meses. Ou seja, os preços do índice, na média, estão caindo.

Além de ter sido contida pelos juros altos do BC, a inflação também sofreu o impacto da queda do dólar ocorrida neste ano. Com o forte fluxo de capital externo para o País, o real se valorizou e barateou produtos importados. O efeito do câmbio é sentido, principalmente, nos índices de preços do atacado, já que as empresas que usam matérias primas estrangeiras têm seus custos reduzidos.

Ao reduzir os juros ontem, o BC já começa a ter como preocupação principal a inflação e o crescimento do ano que vem. Isso porque mudanças nos juros efetuadas de agora em diante terão um impacto cada vez mais reduzido sobre os indicadores econômicos de 2005 - estima-se que uma alteração na taxa leve até nove meses para fazer efeito por completo sobre a economia.

Do lado da inflação, as perspectivas são favoráveis. A meta foi fixada pelo governo em 4,5%, admitindo-se, porém, um desvio de até dois pontos percentuais desse número - as últimas estimativas do mercado apontam para uma alta de 4,8% no ano que vem. Em tese, com a inflação se aproximando das metas, aumentaria o espaço para uma queda nos juros - e juros mais baixos poderiam permitir uma expansão maior da economia em 2006, ano de eleições. Atualmente, a expectativa de analistas de mercado é que, no ano que vem, o crescimento fique em torno de 3,5%.

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