A educadora Rosa Morcelli, 51 anos, moradora na região da Vila Independência e participante dos debates no setor 3 do Plano Diretor, avalia que a falta de prática da participação popular faz com que a sociedade “entre em desvantagem†no processo de elaboração do projeto. Além disso, ela acha que falta qualificação à comunidade. “Os ‘poderosos’ sempre estiveram representados em cursos de capacitação, mas a população mais carente não tem acessoâ€, nota.
Morcelli diz ainda que a prefeitura também estaria enfraquecida no processo, já que teve recusado um pedido de verbas feito ao Ministério da Cidade para bancar os custos da mobilização - no Estado, apenas três cidades conseguiram o financiamento, entre elas Botucatu e Agudos, segundo a Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan). Apesar das dificuldades, a educadora está com esperanças de “recuperar o tempo perdidoâ€. “A atual equipe da prefeitura é muito bem intencionada e tem o perfil de vencer adversidadesâ€, elogia.
Ela lembra que a mobilização comunitária é fundamental, pois os poderosos já estariam organizados. “Bauru é um grande espaço de especulação imobiliária e quanto mais o interesse do particular estiver em risco, tanto mais eles vão exercer sua capacidade de fazer lobbyâ€, aposta Morcelli. Contra isso, no entanto, ela tem a receita: “Político morre de medo de povo organizado e pensa duas vezes antes de contrariá-loâ€, diz.
Neste sentido, Morcelli diz que o Plano Diretor é de competência da população e que os vereadores não devem participar dos debates, a não ser como cidadão morador de uma determinada região. “Deles (vereadores), só quero que aprovem as propostas da comunidade. Se quiserem sapatear no projeto, vamos pedir seus cargos de voltaâ€, ameaça.
Entusiasmo
Os moradores do setor 4 (bairros da região oeste, compreendidos entre a avenida Castelo Branco e a rua Salvador Filardi) são os que estão em estágio mais avançado nos debates, com a realização de diversas reuniões. Na mais recente, realizada na última terça-feira, a sala de aula na Emef Ivan Engler de Almeida foi pequena para abrigar os cerca de 70 participantes.
O líder comunitário do Jardim Vitória, Egídio Gregório de Oliveira, 32 anos, avalia como “muito boas†as reuniões das quais vem participando. “Tudo o que vier para nos ajudar é ótimoâ€, diz, lembrando que passou “de casa em casa†para convocar a comunidade. “E a maioria veioâ€, festeja.
A assessora da Secretaria das Administrações Regionais (Sear) Olga Marques, uma das coordenadoras do setor 4, confirma que a mobilização “tem sido maciçaâ€. “As pessoas estão interessadas em saber o que é o Plano Diretor e onde elas se encaixam no processoâ€, diz.
Apesar de reconhecer que, num primeiro momento, a comunidade quer a solução de seus problemas imediatos (asfalto, iluminação, falta de vaga em escolas e postos de saúde), Marques admite que o verdadeiro “espírito†do Plano Diretor já começa a ser entendido. “A prova é que muitos levantam o problema do desemprego, que está ligado diretamente à questão do desenvolvimento, que deve pautar o projetoâ€, acredita.