O dedo polegar em pé virou inimigo da solidariedade. O hábito de pedir e oferecer carona, que num passado não muito distante era comum nas estradas do País, agora é sinônimo de risco invisível. Figura praticamente banida do mapa das rodovias brasileiras, os poucos caronistas que ainda caminham solitários à beira do acostamento confessam que insistem na prática para aliviar o bolso. Buscar aventura é coisa de poucos.
Nesses tempos contemporâneos, o risco de viajar com estranhos que se conheceram num flash de olhar é uma via de duas mãos. O medo do desconhecido toma conta tanto do motorista quanto do caronista. Afinal, um inimigo oculto pode estar ao lado e mudar o rumo do destino. Esse cenário pode parecer cruel, mas é o que está determinando o fim do hábito de oferecer ou pedir carona.
O autônomo Hélio Silva, 38 anos, é um caronista que não desiste de acreditar na boa fé e na solidariedade das pessoas. Pelo menos uma vez por mês, ele põe a mochila nas costas e vai para a rodovia Marechal Rondon apontar o dedo polegar em direção a Araçatuba. É o caminho de volta à sua cidade, depois de visitar as filhas que moram em Bauru.
“Peço carona para economizar. Se tiver de pagar a passagem de ônibus, ida e volta, são R$ 56,00â€, explica. Essa rotina acompanha Silva há mais de 15 anos. Ele avalia que nos últimos anos a oferta caiu vertiginosamente. “Antes, eu ficava pouco tempo na estrada, uma ou duas horas. Hoje, chego a passar até dez horas no acostamento e ainda corro o risco de ficar a péâ€, conta.
O autônomo se conforma com a mudança de comportamento dos motoristas. Para facilitar, Silva mostra junto com o dedo polegar uma placa de madeira na qual está grafada o nome da cidade para onde vai viajar. â€œÉ a maneira que encontrei para diminuir o tempo de espera. Às vezes dá certoâ€, afirma. Veterano das estradas da região, ele conta que fez boas amizades com pessoas que ainda acreditam na solidariedade.
“Peguei carona com um rapaz e acabamos ficando amigos, inclusive de um visitar o outro. Também já tive a oportunidade de viajar em viaturas da Polícia Rodoviária. Os guardas são bastante camaradasâ€, garante. Quando a sorte não está com o autônomo, ele não insiste. “Não posso dormir na estrada. O jeito, então, é baixar o dedo polegar e dar sinal para o ônibus parar.â€
Se pedir carona solitariamente já é uma tarefa difícil, estar acompanhado pode complicar a situação. No imaginário do motorista que pode se candidatar a colaborar vem à tona o medo de ser dominado por uma dupla, o que dificultaria uma virtual reação. Mesmo assim, os estudantes Leonardo Marinho Vilela Jr., 22 anos, e Rowana Quadros Avante, 20 anos, enfrentam o calor e o sol que permeiam a manta asfáltica da rodovia Marechal Rondon. O casal tem Marília como destino final.
“Estamos vindo de Araraquara. Lá, foi fácil arrumar carona. Esperamos no máximo meia hora. Depois, paramos em Jaú, onde já encontramos dificuldades. Ficamos lá mais de duas horas. Em Bauru, a situação também está difícil. Estamos aqui há mais de três horas e nadaâ€, relata Rowana. Revestida de espírito aventureiro, a dupla não desiste e tem fé que a carona vai aparecer.
Estudante do curso de letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Araraquara, Vilela Jr. conta que a convivência com o acostamento das estradas faz parte de seu cotidiano. “Nem sempre tenho grana para bancar as viagens. O jeito é esticar o dedo e contar com a sorte. É a única maneira que encontro para economizar dinheiro e não deixar de viajar para ver parentes e amigosâ€, diz.
Mas as rodovias da região não têm somente como protagonistas jovens estudantes mochileiros e trabalhadores à procura de economizar algumas dezenas de reais. Bem trajada com uma saia jeans, óculos escuros e lábios contornados por uma discreta cor de batom, a dançarina Patrícia Tamborim, 30 anos, aguardava pacientemente uma carona solidária que a levasse até Torrinha (80 quilômetros a leste de Bauru).
Sentada na sua mala de rodinhas de grife no trevo da rodovia Bauru-Jaú, ela já estava na estrada há mais de cinco horas, desde que saiu de Presidente Prudente, onde trabalha numa boate. Para chegar até Bauru, cumpriu uma viagem que mais parece uma procissão. “Fui de Prudente a Assis, de Assis a Palmital, de Palmital a Ourinhos, de Ourinhos a Santa Cruz do Rio Pardo e de lá cheguei em Bauruâ€, conta, sem demonstração de cansaço.
Tamborim acredita que é uma “mulher de sorteâ€. “Minhas caronas aparecem no máximo em 40 minutosâ€, revela sorridente. Se tivesse de pagar a viagem, a dançarina teria de desembolsar cerca de R$ 70,00. Mas o seu charme já a colocou em situações de perigo. “Certa vez fui atacada dentro do carro por um motorista que tinha cara de tarado. Só me restou pedir a ele que parasse o carro. E por sorte ele parou. Abri a porta e segui meu caminhoâ€, finaliza.