Ser

Brinquedo de adulto

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Videogame é coisa de criança. E também é, sim, brinquedo de adulto. Cada vez mais, o público da faixa etária dos 20 ou 30 anos, que há tempos largou o joystick do pioneiro Atari ou ainda do telejogo, está voltando à atividade. E os marmanjos encontram empolgação - e dinheiro - suficiente para investir em joguinhos de computador ou PlayStation de última geração.

Nas lans houses, casas especializadas em Internet e videogames, os adultos, preferencialmente homens, representam 50% do movimento total, aponta Marília Gabrielli, 26 anos, proprietária de um estabelecimento localizado na avenida Getúlio Vargas.

Guilherme Machado Cabral, dono de outras duas lojas existentes há três anos na cidade, destaca que os adultos correspondem a 70% dos freqüentadores. “O público vem sempre crescendo. Há lançamentos diários na área de games e o pessoal gosta muito”, observa. “Os mesmos jogos que existem nas lans houses a pessoa pode ter em casa, no computador ou no PlayStation”, completa.

Acumulando cerca de 100 games, 25 jogos de computador, volantes, controles remotos e outros acessórios específicos, Renato Tâmbara Neto, 34 anos, gerente de uma revendedora de carros, é apaixonado por videogames. A independência financeira alimenta o hobby. “Hoje, em casa, não dependo mais dos meus pais e posso ter um PlayStation 2 e um projetor, por exemplo. Posso comprar mais do que na época de moleque”, diz.

Se os “investimentos” nos materiais e tecnologia são maiores, os temas preferidos pelos jogadores continuam os mesmos: guerras, esportes e jogo de estratégias. “Tem um grupo que sempre joga ‘Battlefield Vietnã’ (estratégia que pode ser jogada individualmente ou em grupo). Outros gostam do ‘Agy of Mitology’, que traz personagens nórdicos, mitológicos, gregos, egípcios. Cada pessoa cria um exército e luta contra outro jogador ou contra a máquina”, detalha Gabrielli.

Os jogos de estratégia e em grupo são os preferidos do fisioterapeuta Fábio João Paulo Domingos Figueiredo, 28 anos. Pai de uma menina e um menino, de 8 e 3 anos, respectivamente, ele afirma que videogame não é brinquedo só de criança.

Atualmente, ele dedica cerca de seis horas diárias aos games. Parte do tempo é para os filhos, com os quais se diverte brincando com joguinhos variados e anexos infantis. A outra integra seu trabalho como gamemaster. “Sou coordenador da equipe de game do Priestoltale (jogo de RPG). Tenho um time na Internet”, explica ele.

A idéia é unir trabalho e diversão, aponta Figueiredo. “Antigamente videogame era coisa de criança, agora muitos adultos jogam. A força do game vem desde a época do Atari: de um simples joguinho vários temas foram abordados e se tornaram mais complexos. A coisa ficou competitiva e virou um hobby, um esporte e até uma profissão”, pontua.

O espírito competitivo também motiva o empresário Guilherme Borges de Souza, 25 anos. Fã de games desde a infância, ele gasta parte do seu tempo livre jogando. Já se acostumou a chegar do trabalho de madrugada e ligar o videogame. “Gosto de coisas que me entreteem. Acho que muitas pessoas tiveram um videogame na infância. O fato de ser competitivo me motiva a querer me superar, ir cada vez mais longe”, destaca.

O aspecto lúdico e competitivo do videogame pode ser uma das razões do seu sucesso, analisa Gabrielli. “Acho que temos um pouco de criança dentro de nós. Quando jogo eu esqueço de tudo, é uma distração e uma forma das pessoas fugirem do cotidiano”, diz, revelando ser fã dos joguinhos. “Quando tinha 23 anos comecei a frequentar uma lan house. Lá fiz amigos e conheci meu namorado. É um clima muito legal”, diz.

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Atração

Foi justamente o ambiente descontraído das lans houses que atraiu o empresário Ozzzz (nome fictício), 24 anos. “Eu não morava em Bauru e não tinha nada para fazer. Como não conhecia ninguém e não tinha amigos, descobri uma casa de jogos e comecei fazendo pesquisa e trabalhos. Logo gostei dos jogos”, conta. Na lista dos seus games preferidos, estão os jogos de estratégia, como Tibia, e os de ação, como o Counter-Strike, este figurando entre os hits das casas de games.

“O Conter-Strike é um dos mais famosos. São terroristas e policiais que têm a missão de implantar uma bomba num determinado lugar do mapa ou manter reféns-seqüestrados. Os policiais têm de resgatá-los ou desarmar a bomba”, explica José Luiz dos Sansot, funcionário de uma lan house localizada na avenida Getúlio Vargas.

Outra “boa pedida” nas lans é o Need For Speed Underground 2, aponta Guilherme Machado Cabral, dono de uma lan house. “É um jogo de carros. Na tela, conforme o jogador vai ganhando campeonatos, troca os acessórios, muda pneus, escapamentos e compete com outros, como a onda do tunning, em que os motoristas colocam som, néon, enfim, equipam o carro”, compara.

Da ficção para a realidade, o jogar é uma atividade que alivia o estresse diário e produz sensação de prazer, destaca Renato Tâmbara Neto. “Para esquecer um pouco dos problemas, há pessoas que bebem ou fazem coisas erradas. Quando estou nervoso ou quero relaxar, escolho o videogame. É onde me desligo do mundo”, diz.

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