Certo dia, um discípulo inconformado perguntou ao mestre: “Eu simplesmente não consigo entender. Quando estamos na zona rural ou nas pequenas cidades, as pessoas simples nos recebem com alegria e nos ajudam como podem. Quando chegamos, porém, às grandes cidades, as pessoas não são mais acolhedoras, não nos cumprimentam mais com espontaneidade e, às vezes, nem querem nos receber. Por que existe esta diferença?” O mestre então disse: “Vá até a janela! O que você vê?” “Eu vejo uma mulher com uma criança. Um carro que se dirige à praça central”, respondeu o discípulo. “Ótimo”, disse o mestre, “agora vá ao espelho. O que você vê?” “Mestre, eu vejo a mim mesmo”, respondeu, curioso, o discípulo. “Pois bem, tanto a janela quanto o espelho são feitos de vidro”, explicou o sábio, “mas... basta um pouco de prata para que você só veja você mesmo!”
O filósofo grego Sócrates ficou conhecido como o pensador que possuía uma importante máxima: “Conhece-te a ti mesmo”. Porém, o que passou despercebido no transcorrer da história do pensamento foi que o apelo de Sócrates a seus concidadãos foi mais que um auto-conhecimento. O conhecer a si mesmo, na verdade, constituía-se em uma pequena parte do verdadeiro apelo de Sócrates: o “cuidar-se de si”. Na verdade, o filósofo é aquele que procura despertar seus contemporâneos para um cuidado de si. “Cuidem de si mesmos” (em grego “epiméleia heautou”, em latim “cura sui”), procurava alertar Sócrates.
O que o filósofo pregava não era um individualismo no sentido do cada um por si. O apelo de Sócrates estava estreitamente ligado ao aprofundamento do significado das relações sociais, do relacionamento das pessoas em uma determinada sociedade. Sem dúvida alguma, a meta final do cuidar-se de si é o “eu”, o sujeito. A relação consigo mesmo e o bem-estar da pessoa humana aparece como objetivo da prática de si. Porém, este cuidar-se de si está intimamente relacionado com o contato com o outro e o papel central que este possui na relação consigo mesmo. O outro é compreendido aqui como o mediador indispensável no cuidado de si. Já dizia Sêneca que ninguém é tão forte para se livrar por si mesmo do estado de “stultitia”, de insensatez, no qual se encontra: “É preciso que se lhe estenda a mão e que se puxe para fora”.
Nos diálogos socrático-platônicos, existem três formas de contribuição para a construção de uma vida saudável, três tipos de relação com o outro enquanto indispensável para o cuidado de si. A primeira forma de relação com o outro é a contribuição através do exemplo.
Queiramos ou não, buscamos modelos de vida durante o desenvolvimento de nossa existência. O outro, muitas vezes, torna-se um modelo de comportamento, modelo este transmitido pela tradição, pelas religiões, pela mídia ou simplesmente pelo meio social. Estes modelos tornam-se, por um período de tempo, verdadeiros “heróis” e influenciam nossa maneira de ser. São pessoas que aparentemente possuem personalidade e ações marcantes. Sejam estas pessoas autênticas ou construídas, elas mostram caminhos a seguir principalmente através de seus atos. “A grande sabedoria é tudo fazer para não se dizer nada” (Marques Rebello). O segundo tipo de relação com o outro é a contribuição através da competência, ou seja, a simples transmissão de conhecimentos, princípios, aptidões, habilidades, etc. As pessoas, sejam através de instituições como família, escola ou informalmente em grupos de amigos, transmitem seus conhecimentos e informações. “Haverá coisa mais doce do que teres alguém com quem possas falar como se falasse contigo mesmo?” (Cícero).
Finalmente, o terceiro tipo de contribuição é a relação socrática, ou seja, a contribuição do embaraço exercida através do diálogo. O diálogo socrático é aquele que mais indaga, questiona do que informa. Este tipo de diálogo é o melhor remédio para a tolice. O tolo é o convicto de que não possui mais nada a aprender. “Há duas coisas infinitas: o universo e a tolice dos homens” (Albert Einstein).
O incansável questionamento é a forma mais eficaz de fazer o outro (e a si mesmo) sair da tolice e admitir sua ignorância. Mas não é só isso. O método socrático nos ensina que a ignorância tem muito a ensinar, algo que o próprio ignorante não descobriu. O questionamento faz com que possamos perceber que não sabíamos que não sabíamos, mas também que não sabíamos que sabíamos. Provocar a dúvida não é nenhum mal ou pecado, mas consiste em mostrar que a ignorância, de fato, ignora que sabe, portanto, que até certo ponto o saber pode vir a sair da própria ignorância.
Uma sociedade só contribui com o bem-estar da pessoa humana à medida que possui modelos autênticos que transmitem valores construtivos, à medida que os seres humanos compartilham seus conhecimentos e experiências e, principalmente, se questionam mutuamente. Aliás, ao invés dos jovens questionarem os adultos (se é que eles possuem ainda esta prática), os adultos deveriam (ao invés de criticá-los ou se escandalizar com seus comportamentos) simplesmente questioná-los. “Vós olhais para cima quando quereis elevar-vos. Eu, como me encontro no alto, olho para baixo” (Nietzsche).