A situação do trânsito brasileiro pode ser considerada caótica. Anualmente, morrem mais de 34 mil pessoas e ficam feridas outras 400 mil em acidentes de trânsito, cujos impactos materiais estão estimados em R$ 10 bilhões anuais. atuação do ser humano tem sido responsável, segundo pesquisas no Brasil e no Exterior, por cerca de 90% das causas. O tema proposto pelo Departamento Nacional de Trânsito: “No trânsito somos todos pedestres” para a Semana Nacional de Trânsito, reafirma a preocupação de entidades, universidades, centros de pesquisa e de órgãos e entidades que compõem o Sistema Nacional de Trânsito: o pedestre. Os pedestres precisam ser considerados como os principais atores nos sistemas de trânsito, sejam eles homens, mulheres, jovens, adultos, crianças ou idosos. O enfoque “Dê preferência à vida” já havia sido utilizado, em 2003, para evidenciar o supremo valor da vida humana. O caráter humanista do trânsito já havia sido também apregoado na campanha do ano passado, com o tema “O trânsito é feito de pessoas - valorize a vida”.
A justificativa reside no fato de que cerca de 43% dos deslocamentos urbanos no Brasil são feitos a pé. Além disso, os deslocamentos feitos pelos meios motorizados, coletivos ou não, implicam que os usuários em algum momento sejam também pedestres. Alguém que desceu do ônibus, ao transitar pelas calçadas, se torna pedestre; o motorista, após deixar o seu carro no estacionamento, se torna também pedestre. Reclamações sobre vias mal conservadas e esburacadas encontram sempre ressonância e guarida pelo gestor público. Situação bem distinta vive aquele que enfrenta as piores condições possíveis com a construção irregular e falta de conservação dos passeios públicos. A operação tapa buraco só é feita para o asfalto. O pavimento de calçadas só é lembrado pelo idoso ou pela gestante que caiu no buraco, ou pelo cadeirante que não consegue se deslocar, sentindo-se tolhido no seu direito de participar das atividades urbanas como qualquer cidadão.
A falta de respeito ao pedestre é caracterizada não só pela instabilidade emocional dos motoristas na condução dos seus possantes e veneráveis veículos “tunados” e turbinados, quando se assenhoreiam do espaço urbano. Igual ou maior culpa têm os senhores legisladores e políticos que até o presente, passados quase oito anos da vigência do Código de Trânsito, sequer regulamentaram o capítulo do Código relativo aos pedestres e condutores de veículos não motorizados. Ao contrário da experiência vivenciada por países desenvolvidos, que preparam seus cidadãos desde a tenra idade a serem e a respeitarem o pedestre e as leis de trânsito, o brasileiro ainda aguarda a possibilidade de exercer o seu direito elementar de ir e vir com segurança. Quem se traveste de sua armadura moderna, veloz, equipada e sai dirigindo como se o mundo girasse somente em função do seu ego, não demonstra ter o mínimo respeito pelo ser humano, nem mesmo por si próprio. A quem assim se comporta, não resta alternativa senão a da aplicação dos rigores da lei.
Urge que a educação para o trânsito comece efetivamente a substituir a cultura e o comportamento desvirtuados, ainda muito impregnados no brasileiro. Este é o embasamento para a mudança dos paradigmas atualmente vigentes na “guerra do trânsito”. Para aqueles que a educação de berço não contemplou o bom senso e o respeito ao ser humano, aplica-se a lei. Semanas do trânsito são importantes ferramentas didáticas para trazer à memória os ensinamentos do trânsito seguro e socialmente responsável. Mas, do jeito que a situação está, com o aumento no número de mortos em diversas cidades, uma semana não basta. É imperativo ter-se “Ano do Trânsito” todo ano e o ano todo.
O autor, Archimedes Azevedo Raia Júnior, é engenheiro, doutor em Transportes e pesquisador do Núcleo de Estudos de Gestão e Comportamento no Trânsito da UFSCar