Articulistas

Ele está preso


| Tempo de leitura: 3 min

Por essa nem Joseph Campbell esperava! Para ser sincero, creio que nem o mais otimista dos brasileiros acreditava que isso seria possível! Tudo aparentava, ainda mais diante do infindável mar de lama que varre o Congresso Nacional atualmente, que seria mais fácil encontrar petróleo nas terras paulistanas do que Paulo Maluf ser conduzido às dependências da carceragem (ou de qualquer outra) da Polícia Federal em São Paulo.

Os efeitos do acontecimento em discussão nessa coluna, para nós brasileiros, equiparam-se, como bem disse o amigo João Pedro, à queda do muro de Berlim para os alemães! Sim, caros leitores, não há exagero algum na afirmação. Paulo Maluf sempre foi uma figura mítica dentro do cenário político tupiniquim, um verdadeiro baluarte da afirmação “rouba, mas faz!”. Sempre foi candidato a cargos públicos, fazendo tabula rasa a toda sorte de denúncias e provas que pairavam sobre sua pessoa. Fez chacota até com a sofrida Santa Casa de Misericórdia Bandeirante, prometendo um dinheiro que, por ser ilícito, sabia que jamais seria remetido à citada instituição!

Era preciso por um basta nisso! Os cofres públicos da cidade e do Estado de São Paulo sentiram, por anos a fio, a sanha predatória do malufismo e de seus asseclas, enquanto a sociedade incrédula olhava a tudo sem entender como era possível alguém conseguir negar, com tanta veemência, as provas mais concretas e inafastáveis do desvio de dinheiro público já vistas antes. Como era possível, ao melhor estilo Eurico Miranda, negar a própria assinatura na ficha cadastral de um banco no Exterior. Nem o experiente Agildo Ribeiro, no programa Zorra Total, conseguiria imitá-lo com tanta perfeição: “Essa assinatura não é minha!”.

A prisão de Paulo Maluf e seu filho, deixando de lado eventuais exageros ou pirotecnias em relação ao ato, carrega uma forte e benéfica simbologia, no sentido de que o Brasil não é o paraíso da impunidade, da Lei de Gérson, da falcatrua. Pelo contrário! Demonstra, expressamente, que há uma luz no fim do túnel, que é possível a cada um de nós manter a esperança de que todo aquele que malversa o dinheiro público tem a punição merecida e esperada em casos como esse. Que o Brasil, ao contrário do que advertiu Charles de Gaulle tempos atrás, é um País sério, democrático e respeitável.

Essa mudança de atitude, sem sombra de dúvida, trará ótimos reflexos na apuração da corrupção em Brasília, servindo como inequívoco divisor de águas entre a impunidade e a austeridade: os políticos terão mais receio de delinqüir, a sociedade estará menos tolerante e mais alerta, não permitindo a criação de novos mitos, sabendo que, em acontecendo atos de improbidade, os responsáveis serão processados, punidos e retirados da vida pública, não só pelo voto, mas, também, pela atuação firme, imparcial e severa da Justiça.

Que a prisão de um dos maiores líderes e representantes do velho e danoso sistema de fazer política realmente se transforme num marco da história democrática brasileira e não apenas num único e isolado “acidente” de percurso daqueles que optaram por fazer da corrupção uma profissão e do “propinoduto” um meio de vida. Oxalá seja o início do fim da impunidade no meio político brasileiro! Oremos...

O autor, Claudio José Amaral Bahia, é mestre em direito constitucional pela ITE-Bauru e doutorando em direito constitucional pela PUC-SP

Comentários

Comentários