“Ano de 1986. Destino: Mato Grosso do Sul. Finalidade: pescaria. E lá fomos nós formando um comboio de duas Kombis e dois carros de passeio, tendo como viajores/pescadores o pessoal representando a colônia japonesa da Vila Independência, mais precisamente as famílias Tokuhara, Hokama, Okano, etc., e o escriba aqui como convidado. Chegamos em Miranda (MS) e nos instalamos sob a ponte do 21, lugar conhecido pela fartura de peixes. Armamos a barraca e fomos conhecer o derredor. Ali havia um barzinho de construção de tábuas de propriedade de uma senhora chamada, se não me engano, dona Ziza. Prosa prá lá e prosa prá cá, bebidinha daqui e de lá, surgem as estórias que sempre acontecem nos meios de pirangueiros. Alguém disse: “- Sabem do grande acontecimento em Corumbá? Se não sabem eu vou contar. É o ladrão de bicicleta”. Todo mundo falava desse malfadado ladrão de bicicleta. O gozado é que ninguém registrava as ocorrências. Contudo elas vinham acontecendo. Até que um dia numa reunião de amigos num barzinho da periferia, surge um rapaz, encosta sua bicicleta e no meio da rapaziada grita: “É um assalto!” Pegou o que tinha do pessoal e tranqüilamente montou em sua bicicleta e foi embora. Era o ladrão de bicicleta. Decorrido mais um dia, madrugada, lá pelas três da manhã, a maioria já adormecida, restando tão somente eu, o Kazumassa e o Seisin. Calor terrível. O caco cheio de bebida. Ouvimos um som parecendo o uivo de lobo. Mais uma e mais uma vez. Kazumassa e Seisin, apavorados, em desabalada carreira, adentram suas barracas, zipando-as e apagando seus lampiões, permanecendo hermeticamente fechados. Não me contive. Já meio doidão, disse pra mim mesmo: “- Vou ver de perto esse lobo”. E adentrando a mata densa, da época, em direção ao uivo, deparei com algumas casas de pirangueiros que ali moravam. Meu maior espanto foi quando deparei com que quem emitia aquele som, que era nada mais nada menos que um galo no poleiro cantando na madrugada, dando a nítida impressão de um uivo de lobo. Se tiverem dúvidas, é só contatar o Kazumassa Hokama e o Seisin Tokuhara, que ainda residem lá pelos lados da Vila Independência. Ou então o Choei Tokuhara (Mário) do Banespa. Tchau e até a próxima.”
Elpidio Cristino de Lima é pescador e contador de histórias