Nacional

Severino renuncia e promete voltar

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Brasília - Sete meses e seis dias depois de assumir a presidência da Câmara de forma surpreendente, Severino Cavalcanti (PP-PE), 74 anos, renunciou às 16h54 de ontem ao cargo e ao seu mandato de deputado federal. Dizendo-se vítima de “empobrecimento ilícito” na vida pública e afirmando que foi condenado politicamente pela mídia e por aqueles que querem o seu lugar, Severino caiu após 19 dias de pressão resultante da acusação de que recebeu propina em 2002 e 2003, quando era primeiro-secretário da Casa.

Assim como a sua ascensão, a sua queda foi tumultuada. Em um discurso de despedida lido ainda na cadeira de presidente, no plenário lotado da Câmara, o agora ex-deputado demonstrou estar bastante emocionado e afirmou, em 33 minutos de fala, que caiu porque lutou contra “uma elitizinha”, contra “os donos do Congresso”, e que provará usa inocência nos tribunais. No final, antes que alguém pudesse aplaudir, ouviu o grito de uma mulher na galeria: “Vai embora Severino, seu corrupto!” Após isso, um grupo do outro lado das galerias começou a entoar gritos de ordem contra o pepista.

A sessão foi suspensa, a segurança retirou vários manifestantes à força, momento em que Severino aproveitou para se retirar com forte esquema de segurança e sem falar com a imprensa. “Repito que as acusações contra mim são inconsistentes; na verdade, são falsas e mentirosas, e vou comprovar isso nos tribunais”, afirmou no discurso, apesar de não abordar nenhum ponto da acusação nem apresentar provas de sua inocência. Ele assim justificou sua renúncia: “Se continuasse como presidente, iria atravancar o funcionamento da Casa. Entre a Casa e o meu sacrifício eu prefiro ficar com a Casa”, disse, em uma das partes em que improvisou. No texto lido de seis páginas, acusou a imprensa e adversários por sua derrocada.

A renúncia tem o objetivo de evitar a inelegibilidade até 2015 que uma possível cassação acarretaria. Severino promete se candidatar no ano que vem e retornar à Câmara em 2007. Para isso, citou a Bíblia: “Voltarei. Já anunciava o profeta Jó: ‘O júbilo dos ímpios é breve, e a alegria dos hipócritas, apenas um momento’”. Quando chegou ao lotado plenário da Câmara, acompanhado da mulher, Catharina Amélia, e de vários familiares, assessores e seguranças, disse ainda: “Amanhã (hoje) estarei aqui”.

O fato é que o processo de sua sucessão já havia sido desencadeado antes mesmo do anúncio oficial da renúncia. Pelo regimento interno, a Câmara tem prazo de cinco sessões (em tese, até a próxima quinta-feira) para eleger um novo presidente. Hoje ocorre reunião de líderes partidários para definir as regras da sucessão.

Severino, que foi deputado estadual por 28 anos e estava em seu terceiro mandato federal, assumiu o comando da Câmara em 15 de fevereiro após superar todas as previsões e derrotar o candidato do Palácio do Planalto, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Pela primeira vez, quebrava-se a tradição de a maior bancada - no caso o PT - assumir o principal posto da Câmara e o segundo na linha sucessória do presidente da República.

Com a decisão de ontem, o pepista também entra para a história como o primeiro presidente da Câmara a se afastar do cargo.

Comentários

Comentários