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Fé na manhã dos desesperados


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Na madrugada fria, passo de carro, cauteloso, entre tanta gente que se esparrama pela avenida Nações Unidas. O local é perigoso. Ali, uma rotatória serve para distribuir o fluxo de veículos para outros bairros. Sou informado que se trata de uma fila de candidatos a uma das 250 vagas abertas pelo hipermercado prestes a ser inaugurado. “Meno male” que haja empreendedores que ainda confiem no potencial da cidade e busquem a expansão dos seus negócios -penso. Preocupa-me aquele milhar de pessoas - 8 mil no horário de pico, segundo o JC, desesperadas à procura de algum milagre. Encolhem-se para diminuir a sensação de frio na manhã de fim de inverno. Em vez de concorrente, cada um vê no outro, em primeiro lugar, como um anteparo contra os efeitos da brisa gelada. Todas com um papelucho na mão que alguns puristas tomam o cuidado de chamar de “curriculum vitae”, em bom latim.

Agitam-se nervosas em meio a pranchas de madeira e restos de construção. Gente como a gente que todos os dias acorda pela manhã, esfrega os olhos, lava o rosto, escova os dentes... Há aqueles que ainda beijam o filho antes de sair de casa. Mas para onde, José? Para as incertezas de mais um dia nesse País chamado Brasil. Campeão de desemprego, juros altos e estagnação econômica, governado por um ex-operário que prometeu ao povo a vitória da esperança.

Observo as mãos soltas no ar, na perspectiva de quem imagina um ponto de fuga que dê a sensação de infinito. Mãos negras, mãos calosas, mãos finas, mãos brancas, roxas de frio, mãos no bolso. Fechadas. Abertas. Em garra. De unhas pintadas. De unhas roídas. Mãos em feitio de oração como as de Fernanda Cristina, fotografada por Aceituno Jr. com o terço enrolado nos dedos. Pobres brasileiros... Precisamos de um santo protetor para cada desempregado e não há tantos no martirológio da Igreja. Estava ela no local desde às 5h, conta o texto muito bem humanizado de Ricardo Santana. “Briguei com fé, coragem e honra”, disse Fernanda Cristina ao repórter. Empurrou e foi empurrada, mas exibia um sorriso de vitória por ter conseguido manter a posição na fila.

Vivêssemos numa democracia, que é (deveria ser) o regime político no qual o povo é soberano, todos teriam direito ao trabalho. A fila bauruense ainda é pequena diante daquela verificada no Rio de Janeiro onde quase 300 mil disputavam vagas de gari. Em vez de democracia, na verdade, vivemos numa cleptocracia. Nada podemos esperar de um regime político-social em que práticas corruptas, especialmente com o dinheiro público, são implicitamente admitidas ou mesmo consagradas. O Brasil é acusado pelo Banco Mundial de ser o país mais injusto do mundo por causa da distribuição de renda ordinária e o dinheiro concentrado nas mãos de poucos. A crise atual amplia ainda mais o fosso entre o país real, aquele de Fernanda Cristina, e o país oficial proclamado pelo metafórico presidente Lula. Para ele, a “partida está empatada e agora, no segundo tempo, chegou a hora da virada”. Que não seja a hora de “virar” as costas para o povo, mais uma vez. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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