O governo brasileiro comemora hoje o Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos. Comemora porque o Brasil ocupa a vice-liderança mundial em número de transplantes realizados por ano, 90% deles custeados pela rede pública. Mas o caminho a percorrer ainda é longo: a fila de espera por um órgão tem mais de 63 mil pessoas e as estatísticas mostram que muitos desses doentes vão morrer enquanto aguardam.
“A espera por um órgão ou tecido no Brasil dura, em média, dois anos. É sabido que a maioria não vai conseguir”, comenta a médica Amélia Trindade, coordenadora da Organização de Procura de Órgãos (OPO) de Botucatu. Só na fila de espera por um fígado, a mortalidade registrada no Estado de São Paulo é de 18,5% (2004), segundo dados do Sistema Estadual de Transplantes.
A médica ressalta que apesar de registrar um número altíssimo de potenciais doadores (vítimas de morte cerebral), o número de doações é proporcionalmente muito pequeno.
A Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO) confirma. Estima-se que, de cada oito potenciais doadores, apenas um é notificado e, desses, somente 20% são efetivados como doadores de múltiplos órgãos.
Angústia é o sentimento dominante de quem ocupa um lugar nessas listas, como o escriturário aposentado Jeferson Souza, 37 anos. “Descobri a insuficiência renal em agosto de 2001, comecei a fazer hemodiálise e me inscrevi na fila de receptores. É uma espera difícil, porque a máquina é desgastante. Por enquanto, ela (hemodiálise) me dá uma qualidade de vida quase normal, mas não sei até quando”, observa.
“Ainda bem que tem”, pondera o comerciante Mário José Monteiro, 58 anos, referindo-se à hemodiálise. “A gente vem a cada três dias, mas a máquina faz o trabalho dos rins doentes e isso dá mais disposição para a gente (...) Mas se aparecesse um rim, seria a felicidade total para mim”, admite.
Com o slogan “Vida: a melhor herança que você pode deixar”, o Ministério da Saúde está uma campanha para incentivar as pessoas a pensar e falar mais sobre esse assunto. A idéia é que avisem amigos e parentes sobre a vontade de doar.
Isso porque, pela legislação brasileira vigente, mesmo que alguém registre sua intenção de doar por escrito, a captação dos órgãos só pode ser concretizada mediante autorização da família. Quando essa vontade é manifestada em vida, a decisão familiar torna-se menos difícil.
Indagada sobre os principais obstáculos na hora de decidir, a médica Amélia Trindade cita dois problemas principais: a insegurança causada pela desinformação e a demora para a liberação do corpo.
Ela explica que uma alegação freqüente de quem recusa a doação é que o corpo ficará mutilado e deformado. “Isso não é verdade. A lei determina que o corpo seja entregue à família totalmente reconstituído com próteses. Mesmo as suturas são feitas internamente, de modo que as incisões (cortes) sejam praticamente imperceptíveis”, afirma. Quanto à demora, a médica afirma que o tempo entre a autorização e a liberação do corpo é de aproximadamente 24 horas. “Infelizmente, não tem como reduzir esse tempo”, lamenta.
Ela lembra que os órgãos não podem ser armazenados por muito tempo. No caso do coração, por exemplo, o transplante precisa ser feito em, no máximo, quatro horas após a captação. Por isso, a captação só pode ser feita depois que todos os critérios forem atendidos. Exames de compatibilidade, localização do receptor, internação do receptor.
“Só quando o doente estiver pronto para a cirurgia é que iniciamos a captação no doador. Entendemos a dor da família e fazemos tudo o que está ao nosso alcance para agilizar esses processo. Mas há vidas em jogo, tudo precisa estar certo e isso leva algum tempo”, argumenta.