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Espera é sofrida, diz paciente com coração novo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

“Eu sofria de insuficiência cardíaca, uma doença extremamente difícil de conviver, angustiante, uma depressão física muito grande, cansaço, falta de ar. Eu tinha consciência de que era progressivo e que, com o tempo, precisaria de um transplante. Intimamente, eu já sabia o que me esperava.

Entretanto, quando conta para o resto da família é que o drama realmente começa. Sempre há uma fase de desespero, alguém tem que tomar um norte e quem segurou o rojão foram minha esposa e meu pai. Para alguns, eu já estava rotulado para a morte.

Esperar um coração não é fácil, foram 47 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), em São Paulo, convivendo com outros doentes, dramas iguais ou piores. Vi muita gente morrer, gente que tinha acabado de tomar café comigo. Não é fácil... Tem que ter cabeça boa, uma fé em Deus gigantesca e otimismo, porque muitos entregam os pontos.

Eu pensava nos meus filhos, minha esposa, estava no auge da profissão, não podia entregar os pontos. Posso dizer que segurei o rojão pelos meus filhos (...)

No hospital existe uma rotina muito rígida... Num belo dia, aquela rotina foi quebrada. Fiz a radiografia, o exame de sangue, mas na hora do café entrou um médico.

- Heraldo você já fez coagulograma?

- Não.

- Vamos fazer, vou pedir, por enquanto vamos suspender café da manhã.

- Doutor, chegou um coração ou estou piorando e vou precisar de um procedimento de emergência?

Sou dentista, sabia que não era um exame de rotina, que era um exame pré-cirúrgico. Mas ele saiu sem responder. Meia hora depois voltou, olhou para enfermeira, determinou jejum absoluto e saiu. Fiquei com mil minhocas na cabeça. Um pouco antes da visita do meio-dia entra um cirurgião e me acorda.

- Sei que você está assustado, mas tenho uma boa notícia. Conseguimos um coração compatível (...)

O mundo caiu, eu estava lá para isso... Sempre ficava pensando qual seria minha reação, mas não sabia. Baixou uma paz de espírito tão grande, consegui uma chance e ia aproveitá-la. Comecei um processo de resignação, com o filme da minha vida passando. ‘Vou fazer esse filme rodar por muito mais tempo’, disse.

Havíamos perdido minha mãe pela mesma doença. Quando meu pai entrou, disse que a história não iria se repetir. Em duas horas, dissemos tudo aquilo que pai e filho têm para dizer. Avisei minha esposa por telefone, ela avisou os amigos, foi uma festa (...)

A melhor parte foi quando acordei da anestesia. A primeira sensação pós-transplante foi sentir o coração pulsar nos tímpanos. É uma coisa indescritível. Vinte dias depois estava em casa.”

Heraldo Riehl é cirurgião-dentista, recebeu o transplante cardíaco em 5 de setembro de 2003. Dois anos depois, trabalha em seu consultório diariamente, joga tênis profissionalmente, reduziu o número de remédios diários, faz palestras sobre doação de órgãos. Neste mês, ele comemora os seis meses de vida do terceiro filho.

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