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Pisando na bola


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Não sou fã de futebol, mas não pude conter minha surpresa e indignação ao ler as manchetes que dão conta de corrupção também no jogo mais popular do Brasil e do mundo. Doce ilusão, achar que tudo se resumia quase que só à política e a algumas falcatruas empresariais. O que mais entristece é saber que estes juízes, que não devem ganhar nada mal, desprezam o torcedor que paga caro por seu ingresso, que viaja em ônibus lotados, ou paga aos eternos donos das vagas, os tomadores de conta, que a polícia solenemente ignora, se é que alguns de seus membros não são seus sócios.

Receber R$ 10 ou R$ 15 mil para alterar o resultado de uma partida, favorecendo grupos que apostam centenas de milhares de reais, é ato de uma sordidez inominável. As apostas marcadas eram feitas em sites. Doravante, ficamos na dúvida: será que não há corrupção em outras modalidades esportivas? Na fórmula 1 parece difícil, mas nada é impossível para aqueles que gostam de ganhar dinheiro sem fazer força. Fato é que esses sites aceitam apostas também para corridas de Fórmula 1, lutas de boxe e jogos de basquete no Brasil e em outros países. Se costumam ser fraudadas, ainda não se sabe.

O leitor, como eu, deve estar se perguntando: mas só há corruptos neste país? Sobre isto, o psiquiatra Contardo Calligaris escreveu artigo em que fala dos sociopatas. São aqueles indivíduos que furam a fila de embarque (como recentemente fez o senador Mercadante-PT-SP), que trafegam pelo acostamento, que furam o sinal vermelho quando não há risco de assalto... Todas infrações de baixo potencial de risco ou ofensa, na distorcida opinião dos que assim agem, claro! Todos estes perfazem uns 48% da população. Segundo outro psiquiatra, João Augusto Figueiredo, os corruptos, ou corruptíveis, sofrem de um ou mais destes transtornos de personalidade: narcísico, anti-social e borderline (fronteiriço). São, em geral, corruptos em potencial. Acham-se mais importantes que os outros, que tudo lhes é devido, que o resto é resto, enfim, não têm lá muito senso de responsabilidade social.

Pois foi graças ao Grupo de Atuação Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, que esses crimes vieram à tona. Ninguém sabe tudo, nem está pronto para tudo, mas parece que a única atitude possível é a vigilância constante, a observação dos sinais de “sociopatia” e a denúncia, desde que segura e bem fundamentada. Afinal, se estamos num carro, por exemplo, e nosso eventual acompanhante comete aqueles desvios próprios de sociopatas, ou se fura uma fila ao nosso lado, é bom ficar de olho, porque um dia ele poderá nos surpreender, passando-nos a perna. Aqui neste jornal também se aceitam denúncias, com muito prazer e pesar. O sigilo da fonte e a preservação do anonimato são obrigações do jornalista.

O autor, Luiz Leitão, é jornalista

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