Nacional

País perde o humor de Ronald Golias

Por Laura Mattos, Adriana Ferreira e Bruno Yutaka Saito | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Um dos maiores comediantes da história do Brasil, Ronald Golias morreu na madrugada de ontem, aos 76 anos, por insuficiência múltipla de órgãos. Ele estava internado desde o último dia 8, na UTI do hospital São Luiz, no Morumbi, na zona sul de São Paulo. O velório foi realizado na tarde de ontem, no salão nobre da Assembléia Legislativa. Um cortejo com o corpo deverá sair hoje, às 9h30, em direção ao cemitério do Morumbi, onde será realizado o enterro, marcado para as 11h.

A saúde do humorista estava fragilizada desde maio do ano passado, quando foi submetido a uma cirurgia para implante de um marca-passo. Menos de dois meses depois, sofreu uma queda e teve de ser operado para a retirada de um coágulo no cérebro. Golias deixa a mulher, Lúcia, 63 anos, a filha Paula, 38 anos, e uma infinidade de amigos conquistados ao longo dos mais de 50 anos de carreira em rádio, TV, teatro e cinema.

Paulista de São Carlos, foi alfaiate e funileiro na mocidade. Largou tesouras e funis tão logo descobriu a veia humorística como aqualouco do então glamouroso Clube de Regatas Tietê. Magricelo, fazia rir tanto com aquela roupa de banho listrada e máscara para mergulho que não tardou a virar notícia em cinejornais. Ingressou no rádio na década de 50 e, na Nacional, foi descoberto pelo humorista e empresário Manoel de Nóbrega, o criador da “Praça da Alegria” e pai de Carlos Alberto (“Praça É Nossa”).

Em 56, seguiu com o tutor para a TV e se tornou famoso ao se sentar no banco da praça na pele de Bronco, Pacífico e Bartolomeu Guimarães. A consagração veio nos anos 60, quando protagonizou “Família Trapo”, na Record, ao lado de Otelo Zeloni, Jô Soares, Renata Fronzi, Ricardo Côrte Real e Cidinha Campos. O humorístico de sucesso foi embrião do programa “Bronco”, em 1986, “bons tempos” da Bandeirantes. O bordão “ô, Cride”, dito aos berros pelo personagem Pacífico, virou refrão-homenagem na música “Televisão”, dos Titãs. Com o beicinho e a gritaria inconfundíveis, circulou por emissoras e palcos fazendo arte e arte, nos dois sentidos. Foi moleque do primeiro até o último show.

No cinema, atuou em comédias como “Três Cangaceiros” (1961), “O Homem que Roubou a Copa do Mundo” (1963) e “O Dono da Bola” (1961), no qual dividiu a cena com Ankito, Grande Otelo e Jô Soares. Em 1971, estreou no teatro, com “Circuito Fechado”, de corpo e alma. Mais de corpo do que de alma, como mostra a foto em que está completamente nu, com as partes “mais proibidas” tapadas pelas mãos de Ronald Boscoli, Miele e Carlos Manga. Golias permanecia no ar em dois programas do SBT, “Praça É Nossa” (sábado), como Pacífico e Profeta, e “Meu Cunhado” (domingo). Carlos Alberto de Nóbrega, do primeiro, e Moacyr Franco, do segundo, estavam ontem inconsoláveis com a notícia da morte do parceiro de longa data. Os amigos riam com Golias também atrás das câmeras.

Irreverente, apelidou Silvio Santos de “peru”. Encerrou a carreira na TV do “peru” ignorando a idade que avançava. Em 2002, atuou no especial “Hotel do SBT” como um mensageiro atrapalhado que, em parceria com o gerente míope (Moacyr Franco), levava hóspedes à loucura. Em 2003, foi o Romeu apaixonado pela Julieta Hebe Camargo, outra amiga e companheira dos velhos tempos.

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