Regional

Aldeia usa crédito para resgatar cultura

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

Avaí - O medo de tornar-se dependente do sistema financeiro e o risco do apego desenfreado pelo dinheiro não impediram a aldeia Nimuendaju de adotar linha de crédito junto ao Banco do Brasil para investir na produção rural. Pelo contrário. Os índios de Avaí (28 quilômetros de Bauru) querem aproveitar o contrato assinado ontem para fortalecer suas tradições.

Com os recursos obtidos por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), instituído pelo governo federal, a aldeia financiará o custeio da produção especialmente da cultura de mandioca. As famílias também plantarão batata, abobrinha e berinjela.

“O objetivo é trabalhar para a gente mesmo, em benefício da comunidade inteira, sem depender dos outros. Quando trabalhamos para fora (em fazendas vizinhas), beneficiamos só o patrão. O contrato reforçará nossa cultura”, diz o índio Cledir Alves Marcolino.

Concorda com ele Gabriel Poty, diretor administrativo da Cooperativa Agropecuária Coopy-Gua, formada pelas 22 famílias da aldeia. “A nossa intenção não é nos transformar em fazendeiros. Não queremos nos apegar ao dinheiro como os brancos. Discutimos o assunto e concluímos que para aceitar (a linha de crédito) teríamos de fortalecer nossos rituais, laços tribais, como a língua materna, cânticos e danças”, explica.

De acordo com ele, duas vezes por semana, a comunidade freqüentará aulas teóricas sobre a cultura indígena. Aos sábados, praticarão rituais. Amanhã, no entanto, o dia será dedicado à lavoura. “Temos de pagar o financiamento”, diz Poty. Ao todo, 17 famílias obtiveram crédito de R$ 1 mil cada uma, montante que deverá ser pago em 12 meses, com juros de 4% ao ano (leia matéria no texto abaixo).

“Se pagarem até a data de vencimento, terão desconto de 25%”, informa o gerente de administração do Banco do Brasil, Carlos Carvalho. O valor total de R$ 17 mil será creditado na conta da cooperativa em dois dias, portanto, no início da próxima semana, explica Ricardo Alexandre Fahl, gerente de contas do banco.

A verba será aplicada, inicialmente, para pagar horas de máquina na lavoura e na manutenção do trator que a cooperativa adquiriu. “Vamos começar com 10 alqueires (de plantio). O plano é chegar a 30. Todos aqui têm experiência (na agricultura). Chegou em boa hora (o crédito). Vai ajudar bastante”, acrescenta Marcolino. A aldeia é constituída por 78 pessoas, que moram em 25 residências de alvenaria.

____________________

Programa

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) foi instituído em 1996 pelo Governo Federal para prestar apoio financeiro às atividades agropecuárias exploradas mediante emprego direto do produtor e da sua família. Ele atinge vários segmentos, como os pequenos agricultores e o Movimento dos Sem-Terra (MST), por exemplo. Normalmente, os juros cobrados é de 8,7% ao ano, sem rebate (desconto de 25%, como no caso dos indígenas).

“Agora, o índio também é público-alvo. Quando vinha montante do governo federal, não tinha linha para os indígenas. No ano passado, um representante deles participou de encontro em Brasília, fez contato com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e reivindicou”, explica Renata Silva Reis, coordenadora de Agricultura da Prefeitura de Avaí.

De acordo com ela, a demanda foi confirmada no levantamento realizado junto à comunidade indígena. Das cinco aldeias de Avaí, três já foram beneficiadas, contando com a Nimuendaju. Os créditos começaram a ser liberados em janeiro. “O carro-chefe (na aldeia que firmou convênio ontem) será a mandioca. Eles já têm contrato com a farinheira de Guarantã”, informa Renata.

O restante da produção será escoado via Sistema Agro-industrial Integrado (SAI), um programa do Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para inserir produtos no mercado. “A Prefeitura de Avaí também ajuda doando máquinas para trabalhar na lavoura (das aldeias)”, conclui ela.

Comentários

Comentários