Superfalante, bem-humorada e criativa, assim é Amanda Vitória Momesso, 10 anos, que faz a 4.ª série no Caic e participa de atividades no Centro de Atendimento de Distúrbios da Audição, Linguagem e Visão (Cedalvi) – unidade do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo – Centrinho desde o primeiro ano de vida e freqüenta a sala de recursos na escola estadual Mercedes Paz Bueno.
Amanda é deficiente visual, o que não é impeditivo para que tenha uma agenda repleta de atividades. Ela faz teclado, participa do coral do Cedalvi e ama brincar de bonecas e aprender. “Tudo eu quero saber, conhecer, tocar. Eu vejo com as mãos”, explica Amanda.
Como milhares de crianças brasileiras portadoras de deficiência visual, ela também aprendeu a escrever em braile e aproveita de outros sentidos para conduzir sua vida. Cheiros, texturas e sons têm importância diferente para a Amanda, que busca em outros sentidos as respostas para suas curiosidades.
Conversadeira, Amanda já explica sua deficiência aos novos amigos: “Fui apressadinha para nascer. Nasci prematura, com seis meses, e não enxergo.” Sem dificuldade para fazer amizades e encontrar apoio, principalmente na família, Amanda está sempre em alguma atividade. “Não gosto de ficar em casa, agora quero aprender a nadar e a jogar xadrez. Semana passada visitei a piscina do Sesi e gostei muito.”
Amanda também faz questão de citar sua amiga Michele, que desde seus 4 anos colabora com seu aprendizado. “Ela já tem 20 anos, vai comigo à escola, me ajuda a fazer a tarefa. É muito legal.”
Com uma história um pouco diferente e mais experiente que Amanda, o deficiente visual Thomaz Atanázio Filho, 45 anos, enfrentou a infância em uma época bastante diferente, quando muitos portadoras ficavam isolados, trancados em casa, sem poder aprender. “Comigo foi diferente, fui para uma escola para cegos em São Paulo e lá aprendi o braile, a me locomover com facilidade.”
Ele conta com muitas lembranças da infância, pois só perdeu a visão totalmente aos 7 anos. “Eu sempre fui uma criança muito levada e numa dessas brincadeiras, aos 5 anos, levei uma pedrada. Na época, lembro da dor, que minha mãe fez compressa com água quente e naquele dia fui dormir mais cedo. Não parecia ser algo grave, mas a vista é muito sensível, externamente é um quadro e na parte interna outro. Resultado, desenvolvi uma oftalmia simpática, que de simpática não tem nada, pois levou minhas duas vistas.”
Sem ressentimentos, maduro e com uma didática excelente, ele aponta a importância da independência para o deficiente visual. “No começo, eu passei um ano sentando, esperando minha vida acabar. Acho que é mais complicado quando se perde a visão depois de algum tempo, resolvi que tinha que andar, me virar. E assim foi.” Hoje, Thomaz pratica esportes, faz natação, ciclismo, musculação e luta de braço. “Pretendo agora iniciar judô.”
Ele acredita que muitos pais de deficientes visuais ficam com medo do filho se machucar e acabam atrapalhando seu aprendizado e até reduzindo as brincadeiras da infância. “Eu lembro que me machucava muito, mas que criança não se machuca? É preciso se movimentar, mas também ter limites, como qualquer criança.”
Deficiência, portanto, não é impeditivo para aprender, salienta Thomaz. “Cada um é de um jeito, tem criança com deficiência, outras com nariz grande, orelhas de abano, pé grande, se os pais não souberem tratar como uma coisa normal, fica mais complicado na mente dela.”