O bispo emérito dom Cândido Padin, que por 20 anos (1970-1990) comandou a Diocese de Bauru, faz uma releitura do País e chega a conclusão de que os políticos brasileiros governam por “intuição”, sem projetos fixos de educação e de desenvolvimento.
Ao completar 90 anos de idade, dos quais 59 dedicados à vida religiosa, Padin retorna a Bauru para uma visita emoldurada na nostalgia. Ao passear de carro pelas ruas da cidade, foi lembrando, ponto a ponto, os lugares pelos quais peregrinou durante seu bispado.
Fã de Jacques Maritain, humanista francês que marcou época no século passado com suas obras, o bispo emérito expõe sua vida, opina sobre a política no passado e no presente e brinda a entrevista com pinceladas sobre o que espera dos governantes brasileiros. Corintiano de coração, espera ver seu time erguer a taça de Campeão Brasileiro de 2005. A seguir, a entrevista:
Jornal da Cidade - Antes de ingressar na carreira religiosa, o senhor cursou direito. Por quanto tempo advogou?
Dom Cândido Padin - Depois do curso ginasial, no Colégio São Bento, fiz o vestibular da Faculdade de Direito de São Paulo, a famosa Faculdade do Largo São Francisco. Me formei em direito e exerci a profissão por cerca de três anos.
JC - Como o senhor descobriu a vocação religiosa?
Padin - Foi nessa ocasião que surgiu a Ação Católica no Brasil, o grande apostolado dos leigos. Como eu tinha entrado na Faculdade de Direito, comecei a conhecer todo o ambiente universitário. Fiz o curso de direito e, ao mesmo tempo, fiz também a Faculdade de Filosofia do Mosteiro de São Bento. Nessa época, criou-se em São Paulo a Ação Católica, distribuída pelos vários ambientes de vida. Comecei na Juventude Universitária Católica, a JUC. Essa participação no apostolado dos universitários me despertou para a missão de evangelizar a juventude toda. Aos poucos, o nosso grupo da JUC foi se organizando. Tínhamos reuniões todas as semanas no Mosteiro de São Bento. Depois, começamos a ter encontros das Juventudes Universitárias Católicas pelo Brasil todo. Isso me despertou muito, principalmente pelo aspecto de evangelização. Ao mesmo tempo, o nosso grupo era orientado por um sacerdote beneditino, dom Paulo Pedrosa, prior do Mosteiro de São Bento. Fui freqüentando o mosteiro por causa das reuniões. Isso me aproximou do espírito beneditino, que eu não conhecia. Aos poucos, esse contato com os monges do Mosteiro de São Bento me despertou para conhecer melhor a vida espiritual dos beneditinos. Fui me entrosando na vida beneditina como leigo. Depois, em 1938, veio a formatura na Faculdade de Direito. Logo em seguida, também me formei no curso de filosofia. Com isso, fui cada vez mais me direcionando para a vida do apostolado através da Ação Católica e também dos beneditinos.
JC - O senhor vem de uma família religiosa?
Padin - Graças a Deus, sim. Éramos seis irmãos, dos quais três se tornaram religiosos: duas irmãs e mais eu.
JC - O senhor já está completando 60 anos de vida religiosa. Quais foram os momentos mais marcantes desta trajetória?
Padin - A partir da minha entrada no Mosteiro de São Bento, em 1942, fui desenvolvendo atividades com grupos de jovens. Percebi que a vocação beneditina é muito centrada no sentido da evolução pessoal interior de cada um. Depois de fazer os estudos teológicos, eu comecei a ter contatos de apostolado. Particularmente, após a minha ordenação de sacerdote, em 1946, tive uma atividade sacerdotal maior. A minha vida no Mosteiro de São Bento logo começou a se especializar. O mosteiro tinha o colégio da juventude e a Faculdade de Filosofia, o que nos colocava em contato com esse mundo de estudantes e formandos. Logo após a minha ordenação, o mosteiro teve a necessidade de nomear um novo reitor para o colégio. O antigo reitor pediu afastamento devido a sua idade. Então o abade do mosteiro achou que eu já tinha uma vida universitária e me nomeou reitor do colégio. Fiquei surpreso. O mesmo padre que era reitor do colégio também pediu dispensa da direção da Faculdade de Filosofia. O abade me deu mais essa tarefa. Em 1949, a Arquidiocese de São Paulo começou a formar a Pontifícia Universidade Católica, a PUC. Nomeado diretor da Faculdade de Filosofia do Mosteiro de São Bento, comecei a ter contato com todo o mundo universitário. Deixei de exercer a profissão de professor no colégio e passei a exercê-la na PUC. A universidade, então, começou a adequar o prédio, que era um convento de irmãs no bairro de Perdizes. Arrumamos uma casa para as religiosas e adequamos o prédio para a universidade. Todo o dia retornava para o mosteiro. Monge não fica fora do mosteiro.
JC - Especificamente na sua ação pastoral há momentos marcantes?
Padin - Infelizmente tivemos o triste episódio da revolução militar. Em 1964, passei a ser o bispo da Ação Católica para os universitários de todo o Brasil. Eu morava no Rio de Janeiro, mas viajava pelo País. Com isso, foi estreitando cada vez mais o contato com a juventude.
JC - Qual é a leitura que o senhor faz dos governos militares?
Padin - Olha, essa foi uma triste página da história do Brasil. Porque os militares, inicialmente, falavam que a revolução erá só para consertar as coisas que o Jango (ex-presidente do Brasil, João Goulart) tinha feito no Brasil. Mas os militares gostaram do poder e, ao invés de ficarem três ou quatro anos, eles tomaram conta e ficaram 20. E, infelizmente, com orientações muito drásticas, muito militares. Tivemos muitos casos de tortura. Eu mesmo, como assistente da JUC, tive de arrumar situações perigosas envolvendo jovens. Tive de ajudar a arrumar fugas do Brasil para vários elementos da JUC.
JC - Os militares chegaram a ameaçar o senhor devido a esse grau de envolvimento?
Padin - Ameaçavam, digamos, por recados e por distância. De perto, nunca. Quando me tornei bispo de Bauru, uma vez eles (os militares) me mandaram recado. Aí eu disse: ‘Venham e vamos conversar’. Eles não vieram. Não tiveram coragem.
JC - Passadas duas décadas do fim do regime militar, como o senhor avalia os governos dos presidentes civis?
Padin - É claro que a experiência da revolução militar de certo modo teve resultado positivo, que foi a criação de alguns ministérios, como o das Minas e Energia, que desenvolveu a Petrobras. Esse setor eles conduziram bem. Mas nas áreas social e humana foram péssimos. Chegaram a criar a matéria Educação Moral e Cívica, que era simplesmente uma maneira de querer influenciar a cabeça dos alunos. Foi uma tristeza muito grande. Não se pode negar que houve um certo esforço de progresso, mas meramente econômico e técnico. O progresso humano e e educacional foi um desastre. Principalmente pela atuação do Jarbas Passarinho (ex-ministro da Educação no regime militar). Mas os políticos civis que retomaram o poder não estão acertando melhor. É triste ver essas cenas de corrupção.
JC - O senhor, a exemplo de milhões de brasileiros, está decepcionado com o governo do presidente Lula?
Padin - Estou decepcionado com os elementos do governo Lula que se aproveitaram do presidente e estão tirando proveito para si mesmo e para seu grupo. Daí a briga de alguns partidos políticos, que francamente chega a ser desumana.
JC - O senhor não acredita que o presidente Lula esteja envolvido nas denúncias de irregularidades?
Padin - Pessoalmente não acredito. Antes de fundar o PT, ele visitou as cidades do Interior e veio a Bauru. Conversou pessoalmente comigo. Era um idealista sem experiência. Ainda agora ele está tendo uma atuação sob orientação do seu grupo. Com isso, ele não desenvolve aquilo que era esperado que o PT fizesse. O Lula terá de escolher alguns ministros realmente dedicados a seu ramo. Que sejam sérios e honestos no sentido de um desenvolvimento econômico e humano, principalmente. Alguns setores do PT, do PSDB, PMDB vão descobrir um caminho para enfrentar a manutenção do plano de desenvolvimento social e humano. Isso deve ser colocado em primeiro lugar. É minha esperança.
JC - O senhor também tinha bastante intimidade com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Fazendo um paralelo entre os dois governos, houve avanço?
Padin - O problema não é de progresso ou regresso. O problema é, principalmente, a educação política e cívica dos que assumem o poder. Não existe no Brasil, infelizmente, um programa de educação política e de desenvolvimento. Tudo é feito por intuição, pelo jeito de cada um. Alguns governantes estão agindo corretamente. O Alckmin (governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin) é um sujeito correto. Ele está tentando acertar. Não se pode negar isso. Agora, comparando com a ação política de todo o Brasil, é um caos. Cada um quer fazer o seu projeto.
JC - Na condição de bispo, o senhor teve relação muito próxima com o papa João Paulo II. Na sua análise, o pontificado dele foi marcado por avanços?
Padin - Foi extraordinário. Principalmente pelo fato dele ter surgido do Leste Europeu, que não é o centro eclesiástico tradicional. Ele veio de fora. Passou pela triste experiência do nazismo na Polônia. Esse homem realmente viveu na carne a necessidade de buscar a reeducação política na igreja e de todo o mundo. Acho que ele acertou mais do que falhou. Grande acerto, principalmente, de entendimento entre os vários setores religiosos. Conseguiu readquirir a confiança de muitos setores religiosos pela sua atuação de visitas. Foi o papa que mais viajou pelo mundo. Além disso, João Paulo II é o grande responsável pela legislação da igreja, o direito canônico. Deu um avanço na participação de muitos setores que estavam distantes de ter influência na igreja. Ele ofereceu aos religiosos que são bispos a opção de retornarem ou não a sua congregação religiosa. Eles são eméritos. Eu preferi continuar por opção pessoal. Esse papa reintroduziu a Igreja Católica entre os mais notáveis setores do pensamento cristão.
JC - E qual é a sua expectativa em relação ao papa Bento XVI?
Padin - Há dois aspectos a apreciar. Ele foi o cardeal responsável pelo setor da doutrina, portanto, muito exigente para que não houvesse o mínimo desvio doutrinário da igreja. E isso deu a ele uma feição muito rigorosa, conservadora. Eu tive conversas pessoais com o cardeal Ratzinger. Percebi que ele tem abertura interna, mas fica tolhido por causa das doutrinas modernas que pertubam a fidelidade do cristianismo. Mas, por outro lado, ele tem uma psicologia muito cordial. Depois de ter tido experiências de conversas com ele, você percebe aberturas. Tanto é que o primeiro encontro internacional do qual ele participou foi com os jovens, na Alemanha. Isso me dá uma grande esperança de que ele vai se voltar para a atuação no meio do mundo, ou seja, os leigos querendo viver a vida de Jesus Cristo.
JC - O senhor se sentiu surpreso com a eleição do cardeal Ratzinger?
Padin - Um pouco supreso. Eu imaginava que o fato dele ter fama de conservador não iria ajudá-lo. É claro que nós, católicos e cristãos, não acreditamos que o mundo seja governado por nós e sim por Deus e pelo Espírito Santo. Então, Deus tinha lá seus caminhos que nós não conhecíamos. E ele vai indo bem.
JC - Muito se especulou em torno do nome de dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo. Na opinião do senhor, um dia a Igreja Católica terá um papa latinoamericano?
Padin - Não sei. É difícil prever. A eleição do Ratzinger demonstrou que os planos de Deus são completamente diferentes dos nossos. Então, de repente poderá aparecer. Aliás, antes do conclave falou-se muito do cardeal Hummes. Nada é impossível. Agora, humanamente falando, acho que a igreja vai recomeçar a tradição romana após o papado de Bento XVI.
JC - Recentemente, um grupo de ex-padres encaminhou ao Vaticano documento solicitando o fim do celibato. O senhor acredita que o debate deste assunto pela Santa Sé é oportuno?
Padin - Não acredito que com Bento XVI aconteça isso. Em princípio, acho que já estaria na hora da igreja tentar essa abertura. Agora, isso depende muito da formação de uma mentalidade nos fiéis, nos católicos. E isso ainda está um pouco longe.