Na década de 90 a cidade de Cabrália Paulista figurava no cenário nacional como a Capital da Urna Funerária. Na época, oito empresas fabricavam caixões e distribuíam o produto para todo o Brasil. Mas o preço do frete, combinado com a instalação de empresas do ramo na região Norte e Nordeste do País, fez com que o mercado se restringisse e hoje a cidade não sustenta mais o título.
O empresário do setor Nivaldo Roberto Betone lembra que na época havia uma concentração de indústrias. “Chegamos a ter oito empresas. Éramos referência para o País. Uma grande parte da produção que abastecia o Brasil saía daqui.”
O maior mercado consumidor, no entanto, segundo Betone, eram as regiões Norte e Nordeste, onde não havia fábricas de urnas funerárias. “O custo do frete foi se tornando inviável e foram surgindo fábricas em outros Estados.”
Atualmente as fábricas produzem apenas cerca de 20% do que fabricavam na década de 90. “Estamos atuando em outro segmento. Produzo em torno de 2.000 palets/ dia. A produção de urnas caiu para 20%. Nosso mercado principal de urnas é o Estado de São Paulo e a região Nordeste. Não exportamos.”
Na região Norte, de acordo com Betone, não tinham fábrica de urnas. “Existia apenas uma em Alagoas. Hoje, temos em Belém do Pará e no Maranhão. Nessas regiões estamos trabalhando apenas com urnas de melhor qualidade. As mais simples são fabricadas naquela região.”
A mão-de-obra de grande parte dos fabricantes das regiões Norte e Nordeste saíram de Cabrália. “Um empresário daqui foi para Manaus e montou uma indústria. Em Alagoas há outro pessoal daqui que dá acabamento em urnas. Em Salvador também.”
Misticismo
Fabricar caixões também tem seus 'segredinhos', explica o empresário. “O segmento envolve um certo misticismo, que influencia na fabricação. Em certas regiões do País, especialmente na região Sul e alguns lugares da região Norte, a urna tem de ser fabricada com medidas que vão de dez em dez centímetros.”
Isso porque as pessoas dessas regiões acreditam que se uma pessoa que mede 1,6 metro for enterrada em um caixão de 1,8 metro vai sobrar um espaço de 20 centímetros que será usado pelo morto, que volta para buscar outra pessoa da família.
No Estado de São Paulo, isso não acontece. “Aqui ninguém cultiva essa crença. Os caixões são fabricados com medidas de 60 centímetros até um 1,1 metro. Há medidas especiais para pessoas que têm o corpo fora do normal.”
Betone ressalta que numa ocasião teve que fabricar uma urna rapidamente para atender a família de um obeso. “Era uma pessoa muita gorda. Não sei quanto pesava, mas precisou fazer uma adaptação na urna. Tivemos que reforçar a estrutura. Fizemos o trabalho a toque de caixas porque a pessoa não tinha como ser enterrada.”
Segundo o empresário é possível montar 50 urnas por hora. “Hoje produzimos 1.500/mês. O que mais demora é a pintura.”
O caixão infantil é o mais polêmico para fabricar. “É difícil aceitar que tantas crianças morram no Brasil. Hoje, o mercado de caixões infantis está concentrado na região Norte e Nordeste.”
A urna também pode definir a classe social do morto, explica o empresário do setor. “É pelo acabamento que se pode notar a diferença. Os caixões mais simples são fabricados com madeira inferior, usa-se bastante duratex. As urnas mais sofisticadas são fabricadas com madeira nobre, hoje reflorestada. No acabamento das alças, o verniz usado na pintura e a forração interna são diferentes de um para outro.”
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Do além
Fábrica de urnas funerárias não é um do melhores locais para se visitar. Ver muitos caixões ao mesmo tempo, quer se queira ou não, sempre dá um friozinho na barriga, por menos supersticioso que seja. Nem mesmo os funcionários do setor escapam da situação, frisa o empresário do setor Nivaldo Roberto Betone. “Alguns não ficam sozinhos na fábrica”.
O medo trava as pessoas, que temem até aquilo que não é real. Casos curiosos envolvendo funcionários da fábrica de urnas funerárias ocorrem constantemente. “Um dos guarda fechou um cachorro dentro da empresa. Durante a noite, o cão começou a fazer barulho. Desesperado ele acionou a polícia. Outro caso aconteceu em um dia de chuva. O vento batia em um pedaço de plástico e havia dois funcionários trabalhando. Eles correram para a portaria, apavorados.”
O caso mais engraçado, no entanto, aconteceu com um funcionário mais experiente. “Um encarregado trazia a filha junto quando precisava trabalhar no período noturno. Um dia cheguei e ele não percebeu. Brincando, bati nas costa dele. Passou uns dias e ele foi apagar a luz para ir embora. Eu estava escondido e bati a mão nas costas dele. Ele derrubou tudo que estava à frente para sair correndo.”