Em meio a produções hollywoodianas e filmes nacionais com grande apelo popular, a possibilidade de se assistir a longas do cinema independente americano, europeu, asiático ou filmes brasileiros mais modestos é quase nula nos cinemas de Bauru. Com cerca de 350 mil habitantes, a cidade conta apenas com quatro salas comerciais de cinema, enquanto Marília e São José do Rio Preto, por exemplo, com 220 mil e 400 moradores, têm sete e dez salas, respectivamente.
Por conta disso, a programação local naturalmente foca-se em filmes de maior apelo – muitos deles produções de qualidade, sem dúvida. Consolidada, essa situação provocou o crescimento do número de alternativas – caso dos cineclubes. A questão, entretanto, é mais específica: há público para esse “circuito alternativo” de cinema?
Em uma cidade de perfil universitário, com ampla população jovem e adulta, não deveria faltar espectadores para as sessões, gratuitas ou com preços populares. No entanto, as sessões de grupos como o da Universidade Estadual Paulista (Unesp) ou o Cineclube Aldire Pereira Guedes normalmente deixam mais poltronas vazias do que ocupadas. Na opinião de Paulo Henrique Leite Pereira, presidente do cineclube municipal, o público do cinema mudou, em especial na comparação com a realidade de décadas passadas, quando Bauru chegou a ter oito salas de exibição e programação diversificada.
“Não temos público para lotar nove salas porque não existe um trabalho de formação de público. O cineclube busca um caminho interessante, de levar o público a assistir filmes não comerciais e também comerciais, para fazer essa população sair de casa e ir ao cinema”, observa o cinéfilo. Para ele, um dos problemas é a falta de parceria entre os grupos e as salas comerciais, o que possibilitaria a exibição de produções alternativas à programação a um público que já freqüenta os cinemas.
Uma análise nos números das maiores bilheterias do Cine Center aponta que os filmes que venderam mais ingressos são aqueles que atraem público familiar ou que já têm carreira consolidada, seja por pertencer a uma série ou ter nomes estrelares nos créditos. A empresa não forneceu números do Cine Bauru. O fenômeno “2 Filhos de Francisco” entra na lista ainda por levar aos cinemas um novo público, em razão de sua temática. Até a última semana, o longa que conta a trajetória de Zezé di Camargo e Luciano já havia vendido 3,1 milhões de ingressos em todo o País, o maior número do ano até agora.
Por outro lado, o que se espera de um cineclube ou um cinema alternativo são opções diferentes ao que está nas telas comerciais e que se encontra facilmente em locadoras. “Só a Unesp tem 5.000 alunos de graduação, mas o público é principalmente dos cursos de humanas. Não temos outro perfil de cinéfilo e não sei o motivo. Talvez precisaríamos de uma pesquisa para saber o que as pessoas querem assistir”, analisa o estudante de jornalismo Cláudio Rodrigues Coração, que coordena o cineclube da Unesp, aberto à comunidade.
Destacando um sintoma do “circuito alternativo”, ele revela que a sessão com maior público no ano foi a do filme nacional “Quase Dois Irmãos”, dentro do projeto Cine BR Em Movimento. “Já ‘Kill Bill’ teve poucas pessoas. Pode ser porque aquele era um filme inédito e as pessoas queiram essa opção nos cineclubes, mas pode haver o estereótipo de que só passamos filmes difíceis, o que não é verdade”, frisa Coração.
O empresário Paulo Luiz Mortari Pantaleão, dono de uma videolocadora no Altos da Cidade, acredita no potencial do público bauruense para produções não comerciais em razão do reduzido número de opções de filmes em cartaz nas empresas locais. “Bauru tem público para cinema, mas necessita de concorrência. Com mais opções, até os distribuidores se remodelam para atender o público. Quem tem o hábito de ir ao cinema busca conforto e boa qualidade na exibição”, indica.
A analista de RH Janaína Malucci de Oliveira morou em Bauru durante seis anos e atualmente vive em São Paulo. Ela relata que deixou de assistir muitos filmes unicamente porque eles não entraram em cartaz nos cinemas locais. “Para um cineclube dar certo, é preciso oferecer opções diferentes e novas. Eu não saio de casa para assistir um filme do Glauber Rocha – esse eu vejo em DVD –, mas iria ver uma nova produção independente do cinema brasileiro”, completa.
Não é por falta de sessões que o público – que existe – não vem prestigiando os cineclubes, salas de vídeo e outras iniciativas. Os relatos dos entrevistados indicam como possíveis obstáculos falta de divulgação, promoção, necessidade de um pouco mais de esforço para diversificar e mostrar que as produções têm qualidade. De qualquer maneira, as portas já estão abertas e o projetor ligado, só resta ocupar as poltronas.
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Programação
O cineclube da Universidade Estadual Paulista (Unesp) apresenta uma maratona de filmes nesta quinta-feira, a partir das 10h, no Auditório da Central de Salas de Aulas, no câmpus de Bauru. As sessões têm entrada franca e exibirão “Um Corpo Que Cai”, de Alfred Hitchock, “Waking Life”, de Richard Linklater, “Caminhos perigosos”, de Martin Scorsese, “Carne Trêmula”, de Pedro Almodóvar, e “Os Idiotas”, de Lars Von Trier.
Já o Serviço Social do Comércio (Sesc) tem o mês de outubro dedicado ao cinema, com sessões destinadas a estudantes da rede estadual de ensino, a partir de terça-feira, um ciclo com produções da cineasta Lotte Reiniger, no dia 19, e o Festival Internacional de Cinema Ambiental, no final do mês.