A cada dia que passa, a história que redundou no precoce e ilegítimo falecimento do brasileiro Jean Charles em terras britânicas ganha novos contornos de indignação e tristeza, ainda mais ao se levar em consideração a forma brutal como a polícia gringa decidiu por bem e sem qualquer justificativa plausível “eliminar” o “suspeito” em questão. Sem qualquer pudor ou vergonha, as autoridades inglesas sumiram com provas, vídeos e documentos. Ocultaram declarações de modo a tentar, ilicitamente, arrumar argumentos que pudessem legitimar a ação desvairada de seus milicos contra a pessoa inocente e indefesa que, por azar do destino, ali se encontrava, além de dificultar as investigações para que sejam apontados, com segurança, os culpados pela barbárie.
Depois de tudo isso, o governo britânico limitou-se a mencionar que tudo não passou de um terrível e lamentável engano! É muita cara de pau, não? Como se a morte de um inocente pudesse ser considerada como sendo “apenas” um ledo e esquecível engano. Suas santidades se esquecem de que tal “afago” não servirá sequer para amenizar ou mitigar a dor dos pais e da família de Jean. Só quem já passou pelo dissabor de perder um filho sabe o que o casal está sentindo e o vazio infindável que isso traz.
É preciso que fique absolutamente claro que a presente discussão não tem a pretensão de tentar a beatificação, santificação ou a mitificação de Jean Charles, até porque isso seria hipocrisia medíocre e irrazoável. O que não se pode aceitar é que um brasileiro (qualquer pessoa, de qualquer nacionalidade) perca a vida em terras alienígenas (em qualquer lugar) e a situação fique por isso mesmo. Até porque, se o mesmo episódio se desse em terras brasileiras e envolvesse um cidadão britânico ou um cidadão americano, a retaliação seria imediata e duríssima. Os paladinos da justiça mundial Sir Blair e Mr Busch já teriam tentado formar uma “coalização do bem” para boicotar nosso País, sem qualquer pudor ou constrangimento, pois se arvoraram, de há muito, em ser proprietários exclusivos da verdade.
A história de Jean Charles é a história de uma pessoa simples, como a grande maioria das pessoas que forma o Brasil, que apenas objetivava, dentro de suas possibilidades, viver de maneira digna. Seus sonhos foram covardemente interrompidos, sem qualquer atitude sua que pudesse, ainda que de leve, contribuir para a funesta ocorrência. Essa interrupção de vida não foi numa das favelas do Rio ou de São Paulo, não foi um ato do Comando Vermelho ou do PCC, em nada diz respeito com o pensamento terceiro-mundista que paira sobre nossas cabeças. Pelo contrário! O “erro” foi cometido pela polícia de elite de um dos países que se colocou na condição intangível de donos do mundo, donos dos destinos e dos credos dos demais “irmãos” pobres.
Em resumo: quando a coisa acontece do lado deles, trata-se como mero equívoco; quando a coisa acontece contra eles, somente uma guerra pode resolver! Os dois senhores sentem a necessidade de se unir para desmantelar os diversos e diabólicos “eixos do mal” existentes nos mais diversos cantões mundiais. E o nosso brasileiro como fica nisso tudo? Virou estatística... God Save The Queen!
O autor, Claudio José Amaral Bahia, é mestre em direito constitucional pela ITE-Bauru e doutorando em Direito Constitucional pela PUC/SP