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Lula adota tom conciliador com bispo

Folhapress
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São Paulo - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou um discurso de conciliação com o bispo de Barra (BA), Luiz Flávio Cappio, 59 anos, que está em greve de fome para protestar contra o projeto de transposição do rio São Francisco. Lula disse que o governo lutará pela aprovação de uma Emenda Constitucional destinando 0,25% do Orçamento para a revitalização do rio e das cidades ribeirinhas. “Queremos que seja aprovado (projeto de emenda)”, afirmou ontem o presidente, em rápida entrevista, após participar da abertura da Olimpíada do Conhecimento do Senai, em São Paulo.

Lula, que pretende resolver o impasse com o religioso antes de tirar o projeto do papel, elogiou a “grandeza” de quem opta por esse tipo de protesto. “Todas as pessoas que tomam a decisão de fazer greve de fome são pessoas que têm grandeza”, disse. “Já fiz greve de fome (quando era sindicalista) e quando você faz é porque tem uma forte razão em que você acredita.”

Ele afirmou ainda que não irá falar pessoalmente com o bispo, mas lembrou que há “outras pessoas conversando”. “A Igreja está conversando. E a Igreja tem um comportamento que todos nós sabemos em relação à greve de fome”, disse Lula. Sempre ressaltando que irá encontrar um consenso para o impasse, o presidente afirmou que está “tranqüilo com a justeza da obra”. “Sou cristão que acredita em Deus, acho que encontraremos uma boa solução”, disse, sem admitir o atraso da obra por causa do jejum de Cappio. “Não poderia haver suspensão de uma obra que não tem data marcada para começar”, afirmou, citando o fato de que as licenças ambientais ainda não foram emitidas.

Em contraste com o discurso de conciliação com o bispo, o presidente mandou um recado aos políticos que criticam a transposição. “Vejo alguns governantes defendendo o rio, mas a vida inteira jogaram esgoto nele e permitiram que fizessem carvão com as matas ciliares”, afirmou Lula. Segundo ele, o governo fará um trabalho “digno de Brasil”. “Vamos aguardar. Certas coisas têm tempo para começar e para acabar”, disse.

Sem crise

Antes de comentar o projeto de transposição, o presidente discursou para estudantes que participarão da Olimpíada do Conhecimento e não dedicou uma palavra à crise política. Recorrendo pouco ao discurso escrito, lembrou dos tempos em que ele, nos anos 60, estudou no Senai para se tornar um torneiro mecânico.

Citou as metalúrgicas onde trabalhou até se sindicalizar, entrar na vida política e, por fim, virar presidente da República. “Estou dizendo isso porque o caminho que percorri, obviamente que isso é como corrida de carro, nem todo mundo consegue ser um Ayrton Senna, tem um monte lá, mas Senna, ele batalhou para chegar lá”, disse Lula. “Queria dizer para vocês o seguinte: não existe nenhuma razão, por mais que vocês tenham dificuldades, por mais que vocês tenham problemas dentro de casa, não existe nenhuma razão para que a juventude brasileira não acredite que é possível construir um amanhã melhor.”

Wagner

O ministro Jacques Wagner (Relações Institucionais) embarca hoje para Cobrobó, sertão de Pernambuco, para dialogar com o bispo. “Eu vou lá conversar com ele. Eu quero que ele sinta a presença de uma pessoa que está indo lá representando o presidente da República”, informou.

Wagner viaja a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o objetivo de acaber com o protesto, que já dura dez dias. “O que eu estou levando é uma mensagem de diálogo, de conversar com ele. É uma mensagem pessoal que só posso transmitir a ele”, disse. A mensagem será transmitida verbalmente e contém o “balizamento” do presidente.

Na prática, a atitude do governo é atrasar a obra mais um pouco, a fim de persuadir o bispo a aceitá-la. Lula espera convencê-lo com o argumento de que o trabalhará para aprovar a emenda constitucional que destinará mais verbas para a revitalização do rio São Francisco.

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