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O velho Chico


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A greve de fome do bispo dom Luiz Flávio Cappio, no sertão do Cabrobó (PE) e em protesto contra o projeto de transposição das águas do rio São Francisco, remeteu-me a um episódio do tempo em que o político mineiro José Aparecido de Oliveira foi governador do Distrito Federal. Essa história deveria ser contada no “Politicando”, mas como a seção já tem excelentes colaboradores aproveito o meu espaço dominical. Certa feita, um funcionário público cismou em fazer greve de fome para reivindicar índice mais generoso no reajuste salarial da categoria. Armou a barraca defronte ao Palácio do Governo, estendeu faixas explicativas das razões do seu martírio, chamou a imprensa e as entrevistas começaram.

Aparecido, que havia feito escola na política com JK, ordenou que se deslocassem segurança, médico e enfermeiro para acompanhar o manifestante embora o ato fosse contra o seu governo. Não abria mão do dever de garantir a integridade do manifestante e a sua saúde, dia e noite. O povo gostou das providências pelo seu caráter humanitário. Imagine se o homem desfalece de inanição? O governador também não queria levar a pecha de responsável pela morte do funcionário ou de insensível à greve de fome. No segundo dia da manifestação, o sujeito desarmou a barraca, passou a mão nas faixas e deu no pé. Aparecido saiu vitorioso com a sua estratégia e os servidores concordaram com o reajuste possível. Tanto o segurança quanto os profissionais da saúde estavam lá para vigiar o manifestante em turno de 24 horas. Impossibilitado de comer e beber escondido nas horas tardas, ele preferiu tirar o time tão logo o estômago começou a roncar.

O gesto desse bispo do agreste já estava virando tema do noticiário internacional. Mais uns dias e os correspondentes já estariam descendo para o sertão. A multidão ainda se aglomera diante da porta da residência episcopal. Fiéis pedem bênção, rogam proteção. Vendedores de beiju e pipoca aproveitaram o movimento para faturar. Houve reação no Vaticano. Seus colegas do Nordeste condenaram o gesto extremado. Lula, antevendo mais uma crise para o seu governo, tratou de se livrar do pepino com esforços diplomáticos. Justamente ele, criador do Fome Zero. Quando sindicalista também havia apelado para idêntico sacrifício para protestar contra a sua prisão por liderar greves no ABC. Normalmente, os governantes costumam tratar desses eventos com desdém, quando não com arrogância. Lula agiu com prudência e a inteligência que têm lhe tem faltado em fatos recentes. Foi ajudado pelas correntes contrárias ao bispo, principalmente dos seus colegas de episcopado que usaram argumentos da própria Bíblia para condenar a greve de fome de 12 dias. Nem deu tempo da senadora Heloísa Helena armar o circo.

De fato, esse é um projeto polêmico. Tanto pelos seus aspectos econômicos, quanto políticos, técnicos e sociais. Só há duas coisas que não são polêmicas nessa história: a falta de água no Nordeste e a falta de água no rio São Francisco. A navegação que era praticada desde Januária, em Minas, já não é mais possível. Alagoanos e sergipanos temem que falte água para tocar as turbinas do Xingó e para manter as culturas irrigadas à jusante. Há os que também são contra porque, de repente, o projeto pode prejudicar a lucrativa “indústria da seca”. Lula quer resolver um problema do qual também foi vítima. A sua família deixou Pernambuco por causa da seca. A primeira mulher, Maria de Lurdes, nascida no Norte de Minas atingido pelo polígono das secas, também migrou para São Paulo onde morreu no primeiro parto daquele que seria o primogênito do futuro presidente da República.

Vi gente atravessar o São Francisco a vau em Caitité. O Velho Chico está a caminho da morte e não tem mais o que oferecer ao longo da sua trajetória até o Atlântico. Querer tirar do rio, mesmo que seja somente 1,4% das águas - como argumenta o cearense Ciro Gomes -, seria mais uma proeza política. Desde Pedro I fala-se em resolver o problema da seca, mas nada se fez até agora para proteger o rio. O Velho Chico até deve estar orgulhoso de ter voltado a ser notícia depois de décadas de esquecimento. “Deveríamos estar preocupados em recuperá-lo primeiro”, diz o bispo, com razão. Colocar um segundo pavimento em casa de alicerce já deteriorado não pode dar certo. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC )

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