Quatro anos atrás, eu nasci no canil, com meus quatro irmãozinhos. Minha mãe me deu carinho e amor. Eu me aconcheguei e fui mantida quentinha e limpinha. Um dia, eu fui separada e vendida para uma família. Foi minha primeira tristeza, mas passou logo. A família que me adotou era feliz, com três crianças alegres. Cresci achando que eu era da família. Pensei que era um deles. Sentia amor, carinho e alegria. Era muito feliz.
Passei a adorar meus donos, a me dedicar a todos com todo meu coração. Ia no veterinário, tomava banho, tosavam meus pêlos e me davam vacina direitinho. Tudo que um cão pode sonhar e desejar na sua vida. Eu ficava na varanda, olhando a rua e, muitas vezes, eu vi passarem na calçada outros cães sujos, magros, doentes e tristes, procurando comida. Eu não entendia e achava que eu era superior, que eu merecia a minha boa condição.
Um dia, porém, eu fiquei doente. Emagreci, meus pêlos começaram a cair, minha pele ficou cheia de coceira. Meu pai disse que eu estava com leishmaniose. Mamãe disse que eu precisava ser tratada, mas ele não quis nem saber. Falou que eu ia deixar todo mundo doente e que ele ia dar um jeito. Papai me colocou no carro e eu fiquei toda feliz. Adoro passear de carro! Todo mundo começou a chorar e as crianças fizeram aquele berreiro. Por que essa gritaria? Afinal, eu vou passear. Adoro passear! Lá fui eu, toda feliz, passear de carro. Mas que lugar estranho, estamos longe de casa, onde será que vamos? Andamos, andamos, nem sei para onde fomos, até papai parar o carro.
Era um descampado, longe das casas e eu saí do carro toda feliz. Fiquei correndo, brincando, pulando, alegre como sempre fico quando me levam passear no campo. Quando voltei pro carro, não achei mais ninguém. Esperei, esperei, esperei... Ele não voltou me buscar... Acho que papai se perdeu. Mas onde estou? Hoje caminho na rua, tenho fome, estou magra, suja e doente. Ninguém quer saber de mim. Olho as varandas com os belos cães e todo mundo tem nojo de mim. "Sai, cachorra sarnenta!"
Cadê minha família? Cadê minha vida boa? Onde estão meus donos? Quando é que virão me buscar? Quando é que vou para casa? (Milusa, poodle, 5 anos, com leishmaniose)