Prezado leitor, imagine você entrando num supermercado para fazer suas compras, tendo de usar sacolas para ir guardando as mercadorias que irá comprar. Imagine que em nenhum supermercado tenha carrinhos disponíveis para você transportar os produtos pelos quais se interessou e que por isso tenha de fazê-lo pelos corredores carregando as pesadas sacolas. É inimaginável. Ou não. Aquele monte de gente indo e vindo, carregando peso, fazendo careta, esfregando as mãos vermelhas, os velhos perdendo o fôlego, arfantes. Seria melancólico, deprimente, tragicômico. Vamos pensar numa outra situação. Que os carrinhos estão lá enfileirados, como estamos habituados a vê-los, mas que haja apenas um inconveniente: precisamos pagar para usá-los, ou seja, o supermercado, além de ganhar dinheiro vendendo os seus produtos, também ganha alugando o carrinho.
Fiz tal preâmbulo para inocular no espírito do prezado leitor a idéia do inconcebível que cotidianamente insiste em escorrer por entre nossos dedos. Não fosse assim, a insatisfação popular seria tamanha que não faríamos outra coisa senão expressar nossa revolta em cada canto. Somos pacíficos, porque anestesiados.
Vamos colocar agora o terminal rodoviário no lugar do supermercado. Cadê os carrinhos para o transporte de bagagem como há em inúmeros outros terminais de outras cidades por aí? Não, na rodoviária não há carrinhos. Temos de carregar as malas, as bolsas, as caixas, seja lá o que for, à força física. Ou pagar o carrinho! Porque o serviço é pago! Há dois funcionários que fazem esse trabalho. Eles não têm culpa, mas têm de ficar de olho vivo para descobrir os sofredores, e então se aproximam oferecendo seus préstimos. Baratinho? Depende. Já pagamos taxa de embarque, pedágio, seguro, passagens caras... e outras mercadorias. Os carregadores se aproximam como num entreposto comercial. Uma cena de antanho. É pré-histórico. É antiestético. É desumano. Vê-se pessoas idosas sofrendo, famílias inteiras às voltas com pesados volumes, gente curvada ao peso de seus pesares. Só indo lá mesmo para ver. Sugiro a um fotógrafo que o faça e organize depois uma exposição cujo título poderia ser: Tempos de Barbárie. Até o(a) rico(a) tenta disfarçar a expressão de desconforto constrangedor por ter de puxar a mala de rodinhas, como se estivesse puxando o cachorrinho que insiste em fazer as suas necessidades fisiológicas junto ao poste. É como viver sem luz antes da luz, mas se a luz se faz, não há como retroceder.
O exemplo do supermercado mostra que não podemos concebê-lo sem a disponibilização dos tais carrinhos, como penso que no futuro não poderemos prescindir deles na rodoviária, pois o costume se arraiga, tornando-se natural na paisagem, imprescindível.
E um dia, um alguém estupefato exclamará: “Só lembraram dos carrinhos vinte e tantos anos após a inauguração do terminal?!†Infelizmente, vamos carregar esse peso.
“Sim, meu filhoâ€, poderia dizer. “Aliás, hoje é 20 de setembro, comemora-se no Rio Grande do Sul a Guerra dos Farrapos, a Revolução Farroupilha. Devemos lutar sempre. Por um carrinho, por um ideal, por um dia ou por dez anos. Do micro ao macro, desembainhando sempre as palavras, na tribuna do leitor ou na tribuna do Senado.†(Júlio Diogo - RG 13.913.837-7)