Já se discute o pós-Lula. Como afirmei outro dia, o governo Lula acabou e a hipótese de reeleição está completamente descartada. Não é por outro motivo que Lula decidiu viajar intensamente, agora pelo território nacional. A novidade não é a inapetência de Lula para governar. Nunca gostou disso e a principal causa da proliferação da corrupção assenta-se nesse comportamento do presidente: ele é omisso em relação ao que acontece no governo. O motivo de suas viagens é a busca desesperada de reconhecimento pelo seu governo e um pouco de oxigênio para não perder o que lhe resta de popularidade e para não se afogar completamente na crise.
Mas qual a pauta de discussão para o pós-Lula? A meu ver, são duas as questões fundamentais: o que se espera de um novo governo e qual deverá ser o perfil do novo presidente. Já afirmei, em outras oportunidades, que o governo Lula tem trabalhado na área econômica com uma agenda velha. Não foi diferente na área social. Ou seja, em ambas reproduziu quase que fielmente - em alguns casos piorando - a agenda do governo FHC. Mas essa agenda já havia se esgotado e o governo Lula não percebeu. Daí deriva que o perfil do novo presidente terá de ser o de alguém com capacidade de formular uma nova agenda e com habilidade para articular os diversos atores sociais em torno dela, além de competência para implementá-la quando no governo.
É a isso que estou chamando de saída organizada, ou seja, sair lentamente da velha agenda com a formulação de novas propostas viáveis para o país, assentadas em uma base social e política que lhes dê suporte. Não creio que seja difícil criar esses novos caminhos, diante do esgotamento do repertório atual. O ponto de partida, a meu ver, são mudanças fundamentais na condução da economia: redução das taxas de juros reais, subordinação do superávit fiscal às necessidades do país e política cambial que preserve, reforce e diversifique a pauta de exportações do país. Somente dessa forma será possível assegurar um desenvolvimento sustentável ao país.
Mas se é assim tão simples, por que Lula não conseguiu e não consegue isso? Porque desde o processo eleitoral e no exercício do poder, o seu governo foi uma contradição. Para atender o mercado, diante de sua insegurança, fez uma política econômica conservadora, não sobrando recursos nem para reforçar a economia, nem para inovar no plano social.
Como romper com esse círculo vicioso? O candidato ao novo governo, além de ter perfeita compreensão da economia e da sociedade brasileira e das armadilhas da política econômica que inviabilizam uma trajetória de crescimento de longo prazo, terá de oferecer alternativas viáveis a essas armadilhas que, na transição, não gerem instabilidades no mercado ou apostas contra as opções colocadas à mesa. Terá de fazer alguns enfrentamentos nacionais e internacionais. Isso exigirá do candidato profundo conhecimento teórico sobre economia (para não ser enganado pelos economistas) e segurança intelectual, além de capacidade para mobilizar os principais atores sociais em torno das alternativas.
Desatado o nó da economia, os ganhos sociais virão automaticamente. O mercado fará a sua parte com um maior crescimento econômico que viabilizará novos empregos e, conseqüentemente, maior capacidade de pressão para obtenção de aumentos reais de salário (por conta do aumento do emprego), contribuindo para a sustentação de uma demanda crescente. Sairá fortalecida a democracia com a reconstrução do movimento sindical reivindicativo e maduro, além de outros movimentos sociais que, no governo Lula, foram cooptados, tornando-se pelegos. A pauta desses movimentos poderá ser, novamente e a médio prazo, a participação nos ganhos do progresso e não a redistribuição das migalhas.
Para isso, o país precisa de uma liderança que tenha profundo conhecimento do país, com experiência e que tenha segurança sobre os rumos que deverá tomar. Não se trata mais de eleger lideranças carismáticas e salvacionistas que acham que tudo poderá ser resolvido somente com voluntarismo e num estalar de dedos. A experiência com Lula está aí para comprovar que esse não é o caminho. Se tivermos maturidade suficiente para aprender com os erros e com o experimentalismo, o futuro estará em nossas mãos. Caso contrário, continuaremos patinando, sem perspectivas concretas de um futuro melhor. (O autor, Gabriel Ferrato, é professor do Instituto de Economia da Unicamp)