Era uma vez 2,2 bilhões de crianças que viviam numa terra distante. Lá, elas conviviam em condição saudável, distante dos perigos conhecidos apenas através dos livros e das conversas com os pais e educadores. Era muito importante saber a respeito dos males para que se lutasse permanentemente por sua ausência. As crianças estudavam sobre a fome e a desnutrição, conflito armado, HIV-aids, tráfico infantil, exploração sexual e de trabalho, ignorância, drogas, humilhação e violência doméstica. Nada lhes era omitido, tudo sabiam. Elas gostavam de entrar em contato com este universo que, embora causasse espanto e tristeza, oferecia uma visão clara a respeito do que deveriam evitar, usando a sua vontade e inteligência. Este conhecimento existia a partir de relatos que chegavam de outro lugar até esta terra distante.
Numa ocasião, um dos relatos indicava que, mesmo em meio a tanta coisa ruim, havia um dia especial, no qual se comemorava o Dia da Criança. Qual não foi o espanto geral. As crianças ficaram boquiabertas com aquela revelação. Nem tudo estava perdido para o local de onde vinham aquelas informações. O entusiasmo foi tanto que quiseram saber mais a respeito. Como se comemorava aquele dia tão especial? O que se fazia desde o momento do despertar até a hora do descanso? Que impacto aquele dia causava nos dias e meses posteriores? A participação abrangia todas as crianças ou somente uma parte delas? Eram muitas as perguntas acerca do dia denominado “das crianças”, afinal, foi a primeira vez que ouviram falar numa ocasião daquelas.
Então, mediante as dúvidas que levantaram, receberam um novo relato com as respostas solicitadas. Nele, lia-se o seguinte: O Dia da Criança é comemorado em ocasiões diferentes no mundo e, especialmente numa região, a data é 12 de outubro. Neste lugar, a sua origem é da década de 20, embora tenha se firmado nos anos 60 do século 20, quando uma ação comercial impulsionou a venda de brinquedos e o evento se fundiu, crescentemente, à idéia material, se sobrepondo ao espírito da aproximação e da reflexão sobre as melhorias que se pode oferecer à criança.
Desta vez, o espanto foi em razão da decepção que se instalou entre as curiosas crianças da terra distante. O choque, contudo, não as desmotivou. Ao contrário, decidiram estabelecer para si algo parecido, porém, invertendo o modelo aprendido. Todos os dias seriam comemorados como os dias da criança na terra distante, à exceção de um único dia, que serviria para lembrá-las de outras crianças que, na verdade, pouco tem a comemorar.
O autor, Armando Correa de Siqueira Neto, é psicólogo, consultor, conferencista e escritor