A moral de “Os Gatões - Uma Nova Balada”, que estréia hoje no Cine Bauru, é escancarada nos créditos finais. Entre erros de produção, desfilam acidentes que, em sua coreografia, falharam. Carros espatifados que inspiram a pergunta: “Como ninguém morreu aqui?”. O espírito dos créditos está injetado nos personagens Luke (Johnny Knoxville) e Bo (Sean Willian Scott): os primos parecem querer experimentar uma vivência lúdica mas também de prazer, corporal, com o asfalto e seu possante. Ao mesmo tempo, nessa loucura, sentir um pouco a morte.
Versão do seriado de TV homônimo dos anos 70, a comédia do diretor Jay Chandrasekhar narra as aventuras dos dois, acompanhados de Daisy (Jessica Simpson) no sul dos EUA, e realmente lembra a série: áreas bucólicas violentadas por perseguições, carros patinando, a ira das autoridades com os dois jovens, o vilão-coronel sempre enganado. Aliás, são poucas as referências que alertam para o fato de não estarmos no tempo do seriado. Dos chassis vintage aos figurinos, o que temos é uma reconstituição visual. A piada embutida talvez seja que o conservadorismo arcaico regulador da “América” rural não muda, bem como o hedonismo cool e fora-da-lei, o de Luke e Bo, para constrangê-lo. Nos anos 70 ou agora, a paisagem é a mesma.
Neste remix do seriado, o filme acaba reavivando um clima de cinema americano de pneus e gasolina da época. Clima de “Comboio” (de Sam Peckinpah), “Irmãos Cara-de-Pau” (de John Landis), justamente obras que revelam em suas festas de manobras e batidas um rastro de morbidez.
Costurando temas como a habilidade, a amizade elevada a código sagrado e a convivência em sociedade, todos esses filmes têm, no entanto, a aproximação com a morte como deleite, sintoma de vida. É um caminho envolvente, traçado por “Os Gatões”. Sua contradição, porém, é clara.
Há uma falta de rigor que o caracteriza. De forma positiva na narrativa, caótica: o filme evolui tal qual uma corrida maluca, incrementando o humor negativamente nas cenas. A conduta de Luke e Bo - entre a insânia e a idiotia - é uma arma de desintegração da ordem, mas o diretor suga dela o suficiente para criar um filme de tom forçadamente “insano” e “idiota”. As situações de exacerbação dessa conduta são muitas, mas jogadas na tela, sem construção. O que acaba diluindo o que o filme tem em comicidade e discurso emancipador.