Material de limpeza, móveis, cachorro-quente, churrasquinho, pastel, churros, pães, tortas, redes para descanso, bebidas, doces... Por mais que trabalhem com produtos bastante diferentes, existe um fator em comum entre grande parte dos vendedores autônomos que atuam como ambulantes: a falta de oportunidade e de emprego.
Muitos cansaram de procurar serviço e decidiram montar o próprio negócio para obter renda e ajudar a manter a família. Dependendo do ramo de atividade, o investimento não é expressivo, mas a força de vontade e a paciência devem ser, principalmente para obter autorização da prefeitura, sonho de quase todos.
Edivan Carlos Mendonça era motorista de caminhão quando perdeu o emprego, há dez anos. Com dois filhos para criar, procurou sem sucesso outro serviço. Foi aí que teve a idéia de comprar frutas de produtores da região para revender em seu veículo. “Eu pego direto da roça para poder competir com o mercado, caso contrário, ninguém compra da gente”, explica.
A renda mensal de Edivan pode chegar até R$ 800,00, mas depende muito do clima. “Esse dinheiro a gente também tem de investir nos estudos dos filhos”, comenta, preocupado.
Já o vendedor de redes Erivan Rafael dos Santos diz ter escolhido Bauru porque a cidade é movimentada e o povo, hospitaleiro. Ele mora em Lins, mas seu material vem direto da Paraíba. Depois o recebe, fica na cidade cerca de 15 dias, depois vai embora para voltar mais tarde com novo carregamento. “Às vezes, eu saio batendo de porta em porta, mas como é cansativo prefiro ficar parado. Dá para tirar uns R$ 500,00 por mês”, garante.
Cícero Ribeiro prefere trabalhar de forma diferente. Desde que ficou desempregado, há cinco anos, passou a transportar no porta-malas do seu carro salgados, roscas, pães recheados, bolos e outras massas feitas sob encomenda para vender na porta de empresas bauruenses.
“Tenho clientes certos para vender e muitos me procuram por causa da indicação dos outros. Já tenho uma rota específica, que sigo de terça-feira a sábado”, explica.
Tudo é produzido na casa de Ribeiro, com a ajuda da mulher e do filho. Com o trabalho, o vendedor afirma lucrar em torno de R$ 600,00 mensais. O serviço é realizado sem autorização da Vigilância Sanitária.
O mesmo ocorre com o ambulante Marcelo Alves Ferreira, que comercializa espetinhos há quatro anos no Mary Dota com medo da fiscalização municipal. Embora seu carrinho possua água para lavar as mãos, papel toalha, lixeira com pedal, entre outras exigências da prefeitura, ainda não conseguiu alvará para funcionar.
“Eu até tentei tirar o documento, mas eles alegam que não podem conceder por causa do carvão”, disse.
Ferreira trabalha todo dia e arrecada, ao mês, por volta de R$ 1.000,00. “Mesmo em dia de chuva, eu trabalho. Não posso parar porque tenho vários clientes”, comenta, esperançoso de que um dia consiga legalizar sua situação como ambulante.
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Autuado
A última quinta-feira não foi um dia bom para o vendedor ambulante de móveis Milton Souza Ribeiro. É que, enquanto trabalhava no bairro Santa Luzia, recebeu a visita inesperada de um dos fiscais da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), acabou autuado e, de quebra, teve uma cadeira e um balaio apreendidos.
“Pediram para eu ir conversar na prefeitura com o setor de fiscalização. Vou porque sou pobre e não posso perder R$ 185,00”, disse. A cadeira custa R$ 135,00 e o balaio, R$ 50,00.
Segundo o vendedor, em cinco anos trabalhando como ambulante, essa é a primeira vez que recolheram parte dos seus produtos. “Normalmente eles passam e falam para a gente sair, mas nunca tinham levado nada”, lamentou.
Milton é casado e mora com a filha, que também colabora para aumentar a renda familiar. Ele afirma tirar, no máximo, R$ 400,00 por mês, mas, para isso, precisa trabalhar de segunda-feira a domingo, das 9h às 19h.
O ambulante já tentou, por várias vezes, obter alvará na prefeitura e acredita não conseguir porque existem várias lojas na cidade que vendem os mesmos produtos que ele. “Eu não encontro outro serviço, então vou tentar arrumar o alvará para poder vender”, prometeu.
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Prevenção
Casos de criminosos que se passaram por falsos vendedores já foram registrados em Bauru, embora a própria Polícia Militar do município reconheça que eles não são freqüentes. Mesmo assim, a orientação é de ter cautela ao atender os mascates que vendem de porta em porta.
“Não se trata de uma política discriminatória, mas de uma postura preventiva por parte do cidadão”, explica o comandante da 1.ª Companhia da Polícia Militar, capitão Jorge Duarte Miguel.
Segundo ele, antes de abrir a porta para um desconhecido, os moradores devem reparar em tudo, desde a maneira como o vendedor se veste até o modo como ele fala. O comandante ainda pede atenção redobrada aos pais que deixam seus filhos sozinhos em casa. “Eles devem orientá-los a jamais dizer que estão desacompanhados e não permitir que estranhos entrem”, explica.
De acordo com Flávio Kitazume, comandante da 3.ª Companhia da PM, os mascates estão espalhados por toda a cidade, mas a principal área de atuação é a região central da cidade. “Lá, o poder aquisitivo dos moradores é maior, por isso grande parte dos vendedores de rua se encontram naquela área”, afirma.
Kitazume também ressalta que mesmo as residências simples recebem a visita desses trabalhadores, por isso os bairros mais pobres também não estão livres da ameaça.