Cultura

Sobre mundos: O pássaro e a tartaruga

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Certa vez, uma tartaruga encontrou pelo caminho um pequeno pássaro deitado no chão, de costas, com as asas abertas e as pernas estendidas para o alto. A tartaruga admirada perguntou: “O que você está fazendo? Você não está morto, está?”. “É claro que não”, respondeu o pequeno pássaro. “Então, o que você está fazendo aí deitado com os pés estendidos para o alto?”, perguntou a tartaruga com grande curiosidade.

“Você não está vendo?”, respondeu irritado o pequeno pássaro, “Eu estou sustentando o grande céu. Se eu tirar meus pés desta posição, o céu cai sobre todos nós!” A tartaruga olhou embasbacada para o pretensioso pássaro sem dizer uma palavra. Antes que ela tivesse tempo de argumentar sobre a ridícula situação, um galho despencou de uma árvore e caiu sobre o pequeno pássaro que assustado automaticamente fugiu voando. E o grande céu continuou no lugar onde sempre se encontrou!

Quem lê atentamente os Evangelhos aprende uma grande lição de Jesus Cristo: todo ser humano pode ser um líder. O Evangelho de Jesus Cristo é uma poderosa boa nova, pois apresenta os seres humanos como vocacionados para a liderança (Mt 5,13-16). Ser cristão não significa de forma alguma assumir uma postura alienante de resignação diante da vida se enquadrando na imagem estereotipada da ovelhinha obediente que abaixa cabeça e segue cegamente seu pastor. Quem incorpora as palavras de Jesus Cristo descobre o sentido da vida, desenvolve suas potencialidades e se transforma em um líder (Jo 10,10).

Para compreendermos esta verdade é necessário, porém, nos libertarmos de um velho paradigma: liderança é a qualidade de poucos privilegiados. Líder não é simplesmente aquele que chefia, o indivíduo que comanda e possui poder. Muitas vezes, aquele que está no lugar de chefia e no comando, aquele que detém um poder, não é líder e muito menos possui autoridade. Quem se encontra na chefia sem liderança e no poder sem autoridade deveria obrigatoriamente ler os Evangelhos e aprender com Jesus Cristo (Jo 14,12).

Ninguém nasce líder. Liderança não é uma característica nata. Ela é, na verdade, uma habilidade. Liderança é a habilidade de influenciar pessoas para trabalharem entusiasticamente visando atingir os objetivos identificados como sendo para o bem comum. Sendo uma habilidade, a liderança pode ser adquirida. Ao contrário do que nos ensinaram, a liderança não é uma característica de alguns, mas simplesmente uma capacidade que pode ser apreendida e desenvolvida por todos (Lc 8,18).

A palavra chave desta habilidade chama-se “influência”. Porém, influenciar não é exercer poder, mas sim ter autoridade. Poder e autoridade não se confundem. Poder é a faculdade de forçar ou coagir alguém a fazer sua vontade, por causa de sua posição ou força, mesmo que a pessoa preferisse não o fazer. Autoridade é a habilidade de levar as pessoas a fazerem de boa vontade o que você quer por causa de sua influência pessoal. Para se ter autoridade, ou seja, para realmente influenciar é necessário coerência.

Ninguém consegue influenciar alguém se sua vontade não é integra, ou seja, se seu pensar e seu agir não são coerentes. Por fim, para fechar o círculo da liderança é necessário compreender que o líder não veio para aparecer e ser servido (Lc 17-18). Quem quiser ser líder deve ser o primeiro a servir. Quem quiser liderar, deve servir. Dentro desta perspectiva do serviço está o engajamento pelas necessidades das pessoas.

O verdadeiro líder é aquele que possui a capacidade de sentir as necessidades dos outros e não seus desejos. O líder não é aquele que negocia sua liderança com simpatia fazendo a vontade das pessoas. Isso não dura por muito tempo. O líder é aquele que, com coerência, se dispõe a servir para suprir a necessidade das pessoas que o circundam. Quando servimos e nos sacrificamos pelos outros exercemos autoridade ou influência, e quando exercemos autoridade com as pessoas, ganhamos o direito natural de sermos chamados de líderes. O líder é aquele que busca o bem-estar dos outros.

Em outras palavras, ele desenvolve o amor bíblico (agapé), uma dedicação incondicional pelo próximo sem necessitar se simpatizar com ele. O amor bíblico não está na dependência da simpatia, do gostar, mas simplesmente do reconhecimento de que meu próximo é uma pessoa humana e tem o direito de ser feliz. O líder se coloca na situação do outro (Lc 10, 27). Amar biblicamente é ser solidário, o que significa satisfazer necessidades, não vontades.

Se dermos às pessoas o que elas legitimamente exigem para seu bem-estar mental ou físico, não devemos nos preocupar pensando que as estamos mimando. Nós vivemos em um mundo carente afetivamente, mas a carência afetiva não se cura com mimos, mas sim com a satisfação das necessidades e a condução destas pessoas à reflexão de seu sentido de vida. Liderança vem da capacidade de influenciar, esta significa autoridade, que surge da coerência. A coerência, por sua vez, se demonstra pelo serviço e isso exige uma postura madura de solidariedade. “Faze isso e viverás” (Lc 10, 28).

Comentários

Comentários