Ser

Atleta lírico

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 10 min

“Sorte é o encontro da capacidade com a oportunidade.” A velha máxima, que faz parte do repertório de muitas pessoas, também é escolhida pelo tenor bauruense Danilo Stollagli, 27 anos, para definir sua trajetória profissional.

Filho de arquitetos, ele é formado em direito, mas escolheu a carreira musical a partir da vocação. Começou a estudar piano aos 7 anos de idade, com a professora Maria José Tavares Labão Zanardi. Aos 14 anos, se matriculou no Conservatório Musical Pio XII da Universidade do Sagrado Coração (USC).

Em 1995, Stollagli recebeu orientação vocal do tenor carioca Amauri René e, durante esse período, atuou como solista dos corais Veritas, Madrigal Anima, Lírico de Jaú e Orquestra de Câmara da USC. Em 1997, foi para Milão, Itália, participar de cursos de aperfeiçoamento em canto, música e língua italiana.

Em 2002, trabalhou como tenor titular do Coral Lírico do Teatro Municipal do Rio de Janeiro; ano passado, participou das comemorações dos 450 anos de São Paulo. Isso só para citar alguns destaques da extensa carreira de Stollagli, lapidada com muitas horas de estudo diário.

“A preparação vocal do cantor lírico é como a de um atleta. Precisamos treinar sempre. É isso que leva à perfeição”, diz o tenor, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade.

Tanto esforço e dedicação resultaram em uma importante conquista para Stollagli: este ano, ele assumiu uma das 146 vagas de cantores fixos do coral do Theatro Municipal de São Paulo, um dos principais palcos de música lírica do Brasil. O novo trabalho do tenor e uma breve análise sobre o cenário erudito nacional foram temas da entrevista a seguir.

Jornal da Cidade - Você é dono de um currículo profissional extenso e com diversas participações importantes. A que você credita esse sucesso?

Danilo Stollagli - Comecei estudando em Bauru, aos 7 anos de idade, com a professora de piano Maria José Tavares Labão Zanardi. Com 14 anos, passei a estudar canto com o professor João Fernando Paluan e depois com um tenor que morava em Jaú, Amauri René, até 1997, quando fui para a Itália. Comecei muito cedo e em parte acho que o sucesso vem com a sorte. Algumas pessoas têm uma definição sobre ela que acho interessante: “Sorte é o encontro da capacidade com a oportunidade”. Se a pessoa tem só a capacidade, mas não tem a oportunidade, não chega a lugar nenhum. Acho que tive a capacidade e o talento e as oportunidades surgiram para mim.

JC- Teve exemplo de alguém na família?

Stollagli - Minha mãe e meus tios tinham o estudo de piano na formação, mas não seguiram profissionalmente a carreira. Quem me levou para estudar canto foi meu pai. Eu gostava muito de música, já estudava piano e cantava informalmente em casa. Meu pai ouvia, via que eu gostava e achava que eu tinha um potencial. Aí me levou para estudar canto na Universidade do Sagrado Coração (USC). Foi aí que começou minha carreira.

JC - Em que sentido o fato de trabalhar com diversos profissionais contribuiu para sua trajetória?

Stollagli - No canto, assim como em outras profissões, não existe uma pessoa que tem a verdade e que saiba tudo. Então, a partir do momento que tive contato com pessoas e professores diferentes, pude aprender coisas novas. Além disso, passei a enxergar soluções diferentes para problemas iguais. O contato com mais de um professor e a troca de experiências e conhecimentos trazem uma boa bagagem. Estudei com bons profissionais e conheci pessoas novas. Através do Fernando Paluan conheci o Amauri. Depois, por meio dele conheci a professora com quem estudei na Itália. Tudo isso sempre estudando muito porque a carreira de músico e cantor lírico exige que se estude todos os dias. Há sempre uma partitura nova e a preparação vocal do cantor lírico é como a de um atleta. Precisamos treinar sempre. É isso que leva à perfeição. Para se manter em forma é preciso treinar todos os dias, se atualizar, estudar e aprender um repertório novo.

JC - Quanto tempo você se dedica aos estudos?

Stollagli - Trabalho no teatro municipal das 9h ao meio-dia e meio. Esse período é de estudo, porque os ensaios nada mais são do que aprender músicas novas. A cada dia estamos aprendendo músicas novas ou aprimorando aquelas músicas que a gente já leu. Fora esse trabalho no teatro, desenvolvo um trabalho paralelo de estudo em casa, com professores, e também na faculdade de música, que estou cursando. No mínimo oito horas por dia estou em atividade musical. Além disso, dou aulas de canto e acompanho outros cantores, no que diz respeito à atividade musical deles e à construção de repertórios.

JC - Você não pára nunca?

Stollagli – O músico não tem como parar. A carreira de música é muito instável. São poucas as pessoas, e me considero um privilegiado por estar no Theatro Municipal de São Paulo, que tem estabilidade nessa área.

JC – Por quê?

Stollagli - Há bons cantores no mercado, mas é um grupo pequeno que pode desfrutar de estabilidade. O teatro tem como corpo estável apenas 146 cantores para todo o universo da Capital e praticamente do Brasil, porque tirando o municipal de São Paulo há apenas o teatro do Rio de Janeiro, que são os dois teatros profissionais do País. São poucos profissionais que têm o privilégio de, como cantores líricos, ter um emprego estável fazendo o que gostam. Tenho um emprego com estabilidade e a maioria dos cantores líricos não têm isso: eles trabalham por conta, cantam em uma ópera num mês e às vezes ficam três meses sem cantar.

JC - Neste ano você interpretou o papel de Bastien, na ópera “Bastien und Battienne”, de Mozart, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Como foi esse trabalho?

Stollagli – A ópera é em alemão e uma das primeiras obras de Mozart. Foi um trabalho interessante, gravado em CD. É uma ópera pouco executada e tem, inclusive, uma temática infantil. Os personagens são crianças e, durante as pesquisas que fiz durante o trabalho, só encontrei duas gravações dessa ópera, o que é muito pouco. Dentre as óperas mais famosas, chegamos a ter dezenas e centenas de gravações da mesma obra. “Bastien und Battienne” é uma ópera muito acessível e barata porque envolve três personagens. Também é um trabalho curto e a troca de cenários é mais fácil. Para mim foi um desafio fazê-la porque essa ópera foge um pouco da minha classificação vocal; a obra é escrita para um tenor de voz um pouco mais leve e a minha é mais pesada e voltada para a ópera italiana.

JC - Quais são suas referências musicais?

Stollagli – Minha referência principal hoje em dia é a ópera. Dentro desse gênero temos muitos bons cantores, entre eles Luciano Pavarotti e Plácido Domingos, que são mais conhecidos do público; e outros que são menos conhecidos e que, apesar de não terem uma exposição na mídia grande, como o Giuseppe Giacomini, são tenores de grande referência. Para o cantor e musicista, a escuta musical é um grande estudo.

JC - Você participou de cursos de canto e música na Itália, depois continuou esse aperfeiçoamento no Brasil. Quais são as principais semelhanças e diferenças da área erudita entre os dos países?

Stollagli – A ópera nasceu na Itália e, para o italiano, ela é uma coisa muito mais próxima do que para nós. Faz parte da cultura dos italianos e eles têm uma ligação muito íntima com a ópera. A ópera nasceu como uma expressão cultural voltada para o povo. Com o tempo foi evoluindo e talvez tenha se tornado um pouco mais aristocrata e com uma temática mais elaborada, mas a ópera é, na verdade, um espetáculo popular. A diferença básica é que na Itália existe uma tradição e um número de pessoas que praticam arte muito maior do que no Brasil. Existem professores e cantores muito experientes e, para quem estuda canto, esse é um contato quase fundamental. A Itália é o berço do canto lírico.

JC - Diferentemente dos Estados Unidos ou da Europa, onde os CDs de música erudita se esgotam facilmente, no Brasil eles não têm forte apelo popular. Qual sua avaliação sobre o assunto?

Stollagli – Além do mercado restrito, esse é um problema estrutural e de educação da população. A música e o canto lírico são arte e as pessoas têm um pouco de dificuldades, não só financeiras mas de alcance intelectual, para consumir arte, não apenas música, como teatro e artes plásticas. Há também o lado do governo e do incentivo, de disponibilizar arte para as pessoas. Voltando ao Brasil, num universo de 180 milhões de pessoas, ter apenas dois teatros com tradição e periodicidade fazendo ópera e espetáculos de música erudita é muito pouco. A maioria das pessoas não tem acesso ou nunca assistiu um espetáculo de ópera. Isso é totalmente diferente na Europa, onde cada cidade do Interior tem seu teatro de ópera. É uma coisa mais próxima da população.

JC – O que fazer para mudar esse cenário?

Stollagli – Aproximando, incentivando e, principalmente no caso do Brasil, que não tem tanta tradição em música erudita e artes de maneira geral, acho que um primeiro passo seria levar essa cultura para as pessoas, talvez tirar um pouco esse espetáculo de dentro do teatro e levar para as escolas e outras cidades, descentralizar essas ações da Capital e trazê-las para o Interior. O Amauri fazia um trabalho interessante em Jaú, que era o de montar óperas e levar para Bauru. Tudo com muita dificuldade porque patrocínio para esse tipo de atividade é uma coisa complicada e os espetáculos são caros. Acho que um jeito de mudar essa situação seria dar condições para as pessoas de poder freqüentar e apreciar esse tipo de música, muitas vezes inacessível.

JC – Você acha que musicais como “Fantasma da Ópera” são alternativas para popularizar a ópera e o cenário erudito no Brasil?

Stollagli – É preciso ‘separar’ a definição de musical e ópera: as duas são formas de arte, mas a ópera é erudita, enquanto o musical é popular. Eu trabalhei na “Bela e a Fera”, um espetáculo que teve muito público, assim como “Fantasma da Ópera”, que acredito que terá até mais platéia, mas é preciso lembrar que esses trabalhos são formas de artes diferentes, apesar de terem muita coisa em comum; alguns espetáculos mesclam música, teatro e dança, a exemplo da ópera. Os musicais não são considerados música erudita, mas no sentido de divulgar a arte, de uma maneira geral, acredito que eles funcionam.

JC - Você está cursando graduação em música na modalidade de canto erudito. Já pensou em trabalhar com o canto popular?

Stollagli – Sou cantor de música erudita, mas também canto música popular. Tenho um grupo de jazz e gosto muito de música popular. Essa divisão entre popular e erudito é de conceituação, mas na verdade o que existe é música boa e ruim. O fato de ser erudita não significa que a música seja melhor.

JC - Quais são seus próximos projetos?

Stollagli - Este ano já fiz muitos recitais em São Paulo. Faço parte de toda a programação do Coral Paulistano no Theatro Municipal de São Paulo e fora isso tenho meus eventos paralelos, como concertos e óperas. Além disso, embora não seja um projeto, tenho muita vontade de levar uma ópera para Bauru, que eu sei que é uma cidade que tem muita sede de cultura e todos os eventos do gênero são muito bem freqüentados.

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