Tribuna do Leitor

30 anos de “Errare...”: cultura e política em Bauru


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Há exatos 30 anos – dias 8 e 9 de novembro de 1975 – um grupo de garotos do antigo curso colegial – hoje 2º. Grau -, liderado por um ousado professor de História, levou ao palco do antigo cine BTC uma peça de nome estranho: “Errare humanum est”.

Aquela colagem de textos, cenas e personagens, alinhavada por uma eclética trilha musical, fez um sucesso acima do esperado. Nove sessões seguidas, com casa cheia, marcaram o panorama cultural bauruense da época.

O professor que articulou tudo aquilo chamava-se Paulo Neves. Os garotos e garotas eram Edson Celulari, Gilson Ribeiro, Fabio Sormani, Sonia Castellar, Renata Coelho, Emir Bechir e muitos outros, entre os quais figura o abaixo assinado.

Mais do que a lembrança individual de cada participante, aquele espetáculo e a movimentação que o precedeu – os estudantes agitaram rádios, jornais, bares e muros da cidade - representaram o início de um processo de retomada cultural no ocaso da ditadura (1964-1985), após anos de censura e restrições. Fenômeno semelhante acontecia em todo o Brasil, em maior ou menor grau, numa época em que ainda tínhamos, como marcas do autoritarismo, o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, o massacre de líderes esquerdistas no bairro da Lapa, em 1976, e o pacote de abril de 1977, que fechou o Congresso e ameaças várias contra o processo democrático.

A reorganização da cultura era parte da reação a tudo isso, que levou, em seguida, à retomada das manifestações públicas, à Anistia, às greves operárias do ABC e muito mais.

Em Bauru, isso se desdobrou, nos anos seguintes, em publicações independentes - Alternativa (1976), de Jeferson Barbosa, Mutirão (1977), de Geraldo Bérgamo e Odil Oliveira Filho – no cineclube Isaac Portal Roldan - em feiras de poesia e muito mais. Tudo culminou, no final da década, com a volta do movimento estudantil, com as eleições de vários Diretórios Acadêmicos nas faculdades, com a luta local pela volta dos exilados e presos políticos, liderada, entre outros, por Antonio Pedroso Júnior, e teve seu desaguadouro institucional nas eleições municipais de 1982.

Comemorar tudo isso – a palavra quer dizer lembrar juntos – não é um ato de saudosismo. Debater e conversar sobre aqueles anos e entender seus significados é fundamental para seguirmos em frente.

E planejar o que nós, garotos de sempre, de Bauru e de toda parte, faremos pelos próximos 30 anos.

Beto Maringoni

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