O referendo sobre a proibição do comércio de armas é um tiro certeiro no cidadão comum; este, vencido pelo disparo e exangue do sangue crítico que lhe sonegaram desde tenra idade, vê uma simples pergunta brotar-lhe no espírito: Sim ou não? E, como é próprio da necessidade humana, trabalha com a massa que lhe colocaram na cabeça e daí vêm dúvidas que jamais teriam existido: será que preciso de uma arma? É preciso proibir para que mais mortes não ocorram? Por que não há um referendo também sobre o aumento de salário de parlamentares ou do Poder Judiciário?
O gatilho de um revólver 38 não permite a reflexão própria da lâmina de uma faca.
Uma outra questão é confundirem-nos com máquinas digitais que operam com valores booleanos de verdadeiro/falso. Privam-nos do benefício da dúvida diante de um monstro maniqueísta que tem fome de respostas precisas e opositivas. E depois vem o Chico Buarque, e alguns outros artistas de igual calibre, que sempre lutaram ferrenhamente contra a ditadura sessentista, e dizem ali pra todo o mundo em rede nacional votar “SIM À PROIBIÇÃO!”. E, por falar em publicidade, gostaria de ter em mãos o custo de toda esta engrenagem que gira para o funcionamento do voto. Ainda não fui informado sobre a existência do botão branco (para anular) e, se houver, vou usá-lo com toda a dignidade para sublimar a obrigatoriedade deste ato.
As duas campanhas publicitárias, do Sim e do Não, têm usado muito bem os recursos retóricos que jamais se desgastam e sempre funcionam como instrumentos de persuasão. Um exemplo disso é quando a campanha “Vote Não” diz que não podemos perder o direito de comprar uma arma, mesmo que não precisemos comprar nenhuma. O erro aqui está em omitir que direitos não existem no mundo abstrato e não podem existir em si mesmos e, muito mais que um ideal de liberdade, devem ser considerados relativamente nos contextos e acidentes do cotidiano. Alguém, por exemplo, concordaria com o direito de comprar haxixe no supermercado ou ainda o direito ao assassinato? A campanha “Vote Sim”, por outro lado, utiliza pesquisas direcionadas, confusas e parciais para validar a proibição.
Gostaria que ficasse aqui a seguinte observação escrita: qualquer governo ou poder vigente só desce às ruas das camadas populares quando isto lhe interessa politicamente ou para legitimar uma decisão que já foi tomada. O cotidiano é infestado de mentiras e o segredo de uma boa vida é escolher quais delas queremos seguir.
“...e o Bem não seria Mal? e Deus apenas uma invenção e finura do Demônio? Seria tudo falso, afinal? E se todos somos enganados, por isso mesmo não somos também enganadores? não temos de ser também enganadores?” (Retirado do livro Humano, Demasiado Humano — 1878, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche)
Luís Fabrício de Lima Odassi - Agudos-SP - RG 15510224-2