Responsável pela popularização da aviação, o modelo Demoiselle, construído por Alberto Santos-Dumont entre 1907 e 1909, está sendo “ressuscitado” em Bauru. O responsável pela proeza é o técnico em refrigeração bauruense Milton Matheus Fercher.
Diz-se “proeza” porque a tarefa compreende fabricar uma aeronave feita apenas de bambu, madeira, seda e alguns pedaços de arame e movida a motor de 2 cilindros com pistão horizontal. Além disso, até o momento, todas as tentativas de reproduzir o Demoiselle no Brasil se mostraram frustradas – o avião não saiu do chão, ao contrário do que ocorreu em setembro de 1909, quando Santos-Dumont conseguiu voar 18 metros a 96 km/h, batendo recordes de velocidade na época.
“A minha intenção é que o modelo voe, nem que decole um pouco e saia a poucos centímetros do chão. Já me darei por satisfeito com isso”, afirma Fercher, que se define apenas como “curioso”. “Nunca fui fanático por aviação, tive uns modelos de aeromodelos e só”, completa.
Mas que diabos, então, motivaram Fercher a encarar a empreitada mesmo sem conhecimentos específicos de aviação? Segundo ele, o desafio de viver uma aventura. “Todo mundo não tem um sonho? Pois é, este é o meu”, afirma.
Esse sonho, no entanto, começou de maneira despretensiosa. Um amigo mostrou-lhe cópias de folhas do que seria a planta de um Demoiselle número 19 de Santos-Dumont e sugeriu que Fercher tentasse reconstruí-lo. Intrigado, o técnico solicitou a ajuda de conhecidos para traduzir as instruções do inglês para o português.
Em seguida, procurou compreender os croquis e, quando se deu conta, já estava pesquisando e investigando materiais que se aproximassem ao máximo dos utilizados por Santos-Dumont no Demoiselle original. Viajou a Agudos e Brotas para conseguir bambus que garantissem a envergadura recomendada no projeto. Descartou braçadeiras de ferro e optou por amarrações de arame, tudo para ficar semelhante à ‘libélula’, como o modelo ficou conhecido entre os amantes da aviação.
“Estou seguindo as mesmas medidas e escalas da planta. Não quero um Demoiselle modernizado, mas um modelo o mais próximo possível do original”, sustenta Fercher. Segundo ele, é esse rigor que diferenciará a sua aeronave das réplicas até então construídas no Brasil, que chegaram a utilizar até mesmo um motor de Fusca, mas nem por isso saíram do solo.
Os cuidados em seguir a planta também têm por objetivo reduzir ao máximo o peso do modelo, que pelos cálculos de Fercher deve ficar entre 120 e 130 quilos. “Peso bem próximo ao Demoiselle original, com 110 quilos, que foi o responsável pela popularização da aviação”, explica o técnico em refrigeração.
Até o momento, o projeto tem consumido de 30 minutos a uma hora por dia do técnico. Os quatro meses de trabalho resultaram numa réplica, pelo menos visualmente, bem próxima do original e no apelido de “Santos-Dumont bauruense” dado pela vizinhança, atiçada pela curiosa engenhoca a ocupar uma das mesas da oficina de refrigeração de Fercher.
“É uma honra ser chamado assim, porque não existe nem vai existir um homem como Santos-Dumont na face da Terra”, defende.
Mas orgulho mesmo Fercher tem por ter despertado o interesse do filho Gabriel, 7 anos, por Demoiselle e Santos-Dumont. “Ele diz aos colegas de escola que irá homenagear o inventor em 2006”, conta.
A pretensão é concluir o Demoiselle bauruense até março de 2006, mês previsto para a viagem do tenente coronel aviador Marcos Pontes à estação espacial russa. Nesse ano também serão comemorados 100 do primeiro vôo mecânico do mundo, façanha alcançada por Alberto Santos-Dumont com o 14-BIS.
A réplica do Demoiselle bauruense não será pilotada por Fercher. “Não sou piloto, sou curioso. Quero dar esse prazer a alguém que seja apaixonado por aviação”, diz. Alguém se habilita?
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Conheça a história
Nascido na cidade mineira de Santa Luzia do Rio das Velhas, depois Palmira e hoje cidade de Santos-Dumont em 1932, Alberto Santos-Dumont começou a ser conhecido no Brasil e na França por conta de suas experiências com balões e dirigíveis.
Em julho de 1906, começou a testar um novo veículo mais pesado que o ar, desta vez motorizado, que apelidou de 14-BIS. Diferente de outros inventos da época, o modelo do brasileiro não precisava de um veículo auxiliar para levantar vôo.
Depois de várias tentativas, algumas que resultaram em sérias avarias no equipamento, Santos-Dumont conseguiu realizar um vôo com um veículo mais pesado que o ar em 23 de outubro de 1906, portanto, há exatos 99 anos. Foram sete segundos no ar, tempo em que percorreu 60 metros a cerca de três metros do chão.
“Com esse feito, Santos-Dumont arrebatou 3.000 francos do prêmio Archdeacon, criado em julho de 1906 pelo americano Ernest Archdeacon, para premiar o primeiro aeronauta que conseguisse voar por mais de 25 metros em um vôo nivelado”, relata o site Cabangu, dedicado ao “pai-da-aviação” (www.cabangu.com.br).
A partir de 1907, o brasileiro iniciou experiências com um aeroplano de madeira. Os modelos, de número 15 a 22, foram apelidados pelos franceses como “demoiselle”, pela sua semelhança com uma libélula.
Depois de inúmeras tentativas, mudanças de projeto e motor, Santos-Dumont chegou ao Demoiselle nº 20, cuja fuselagem era construída de longarinas de bambu com juntas de metal e as asas cobertas de seda japonesa, o que o tornava leve, transparente e de grande efeito estético.
Com esse modelo, o aviador estabeleceu o recorde de velocidade voando a 96 km/h. Fez um vôo de 18 quilômetros, de Saint-Cyr ao castelo de Wideville, considerado o primeiro reide (excursão) da história da aviação. A aeronave também era utilizada para visitar amigos.
Ainda em 1909, o projeto foi alterado e surgiram os modelos de números 21 e 22, igualmente leves e capazes de serem transportados em automóveis. “Estes dois modelos demonstraram qualidades bastante satisfatórias para a época, sendo produzidos em quantidade, uma vez que Santos-Dumont, por princípios, jamais requereu patente por seus inventos”, aponta o site Cabangu.
Por conta da ausência de patente, o “Demoiselle” foi copiado por inúmeras pessoas, favorecendo a popularização da aviação.
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