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O salário e a inflação


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Todos devem trabalhar para viver, embora alguns não trabalhem e vivam bem e outros trabalhem muito e vivam mal. A sociedade está organizada em três setores: o governo, as empresas e os trabalhadores. Pelo serviço prestado, cada uma recebe uma remuneração. O salário é o que o trabalhador recebe. As empresas ganham o lucro. E o governo cobra os impostos.

Os três têm recursos e gastam para suprir suas necessidades. O governo gasta em saúde, educação, estradas, com funcionários públicos, mordomias e corrupção. O trabalhador gasta para alimentar-se, vestir-se, morar, lazer.

Sabemos que inflação é o nome dado ao fenômeno econômico dos aumentos de preços. Isso é causado pela procura de bens maior do que a oferta do mercado, ou seja, há mais dinheiro nas mãos das pessoas do que produtos nas lojas. Assim, segundo uma das teorias econômicas, para se combater a inflação, deve-se “enxugar” o dinheiro do mercado para adequar a procura à oferta.

O salário do trabalhador é tido como inflacionário, já o lucro e o imposto não são inflacionários. Ora, se 10% da população mais rica do País detinham 51% da renda nacional, como pode os 90% da população que detém apenas 49% da renda inflacionar? As compras do governo também não são inflacionárias? Nem quando os responsáveis pelo patrimônio público compram das empresas dos amigos a preços maiores? Assim, os responsáveis pela política econômica afirmam que governos e ricos não são responsáveis pela inflação, apenas os assalariados.

Por que será este o dogma da economia? A resposta parece fácil, diante dos dados apresentados: a desorganização dos pobres em defender-se. Veja que o governo tem os exércitos, os ricos o controle da política, já os pobres ficam achando que a organização sindical e política é coisa de comunista.

Outra grave diferença: ao trabalhador é dado um salário definido pelo patrão ou pelo governo, já os investidores têm flexibilidade para fixar seu lucro e o governo o seu imposto. E por falar em impostos, quem os paga corretamente? Apenas os trabalhadores que os têm descontado na fonte ou nos produtos, ou seja, os pobres. Já os ricos podem sonegar à vontade.

Assim sendo, é preciso que os trabalhadores conscientizem-se de que pertencem a uma classe explorada e passem a integrar movimentos comprometidos com a maioria da população. E, nestes tempos sombrios onde reina a traição aos eleitores, ajudem, principalmente, a cobrar.

O autor, Mário Eugênio Saturno, é tecnologista sênior da Divisão deSistemas Espaciais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe

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