São Manuel - Berço de uma das Organizações Não-Governamentais (ONGs) mais atuantes do País, dedicada ao combate à hepatite C, São Manuel tornou-se a primeira cidade do País a fazer uma campanha para detectar a doença nos moradores.
Lançada no fim de agosto, a campanha já atendeu a 203 pedidos de exame anti-HCV. Desses, seis deram positivo. Os exames custam cerca de R$ 60,00 e são custeados pela prefeitura. A intenção é que todos os moradores façam o exame. Ele é o primeiro passo para saber se a pessoa tem o vírus da hepatite.
Trata-se de um exame de sangue simples, que hoje em dia tornou-se obrigatório nas doações de sangue na maioria dos países.
Uma vez detectada a doença, o portador passa a fazer parte de um pólo assistido, que tem como objetivo oferecer auxílio psicológico. “Nesse pólo, com várias pessoas se tratando e trocando informações, é possível amenizar o sofrimento”, diz o prefeito Flávio Silva (PSB), um dos idealizadores do programa.
Ele conta que a idéia surgiu depois que começou a participar de palestras sobre a doença. Em uma delas, questionou a si mesmo: “por que não examinar todo mundo na cidade?”, relembra o prefeito.
Como a cidade conta com a ONG C Tem Que Saber, C Tem Que Curar, não seria difícil encontrar parceiros para a empreitada.
A campanha ganhou as ruas da cidade por meio de folhetos, que foram entregues de casa em casa, outdoors, anúncios no rádio e em jornais. Embora seja direcionada a todos os moradores, a campanha começou pelo grupo de risco. Ou seja, aquelas pessoas que receberam transfusão de sangue ou fizeram algum transplante antes de 1993, consumidores de drogas injetáveis, doentes renais em hemodiálise, filhos de mães contaminadas com hepatite C e portadores do vírus da Aids, entre outros exemplos.
A preocupação é maior com as pessoas que fizeram transfusão de sangue e transplantes antes de 1993 porque até então o uso de produtos descartáveis não era tão disseminado e os cuidados para evitar uma contaminação eram menores.
Portanto, os exames feitos até agora são apenas de pessoas que fazem parte do grupo de risco. Seis estão contaminados, o que significa que a incidência da doença está em 3%. A prevalência estimada para o grupo de risco é de 15%.
Para o prefeito, os 3% não são motivo para comemorar. “O ideal é não ter nenhum infectado.”
Constatada a doença, o paciente é encaminhado para exames mais específicos no Hospital das Clínicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu. Lá é feita a biópsia hepática para saber o genótipo e o grau de fibrose no fígado do paciente - informações fundamentais para iniciar o tratamento.
Cerca de 80% dos pacientes que precisam de um transplante (quando a doença está bem avançada) morrem na fila de espera. Apenas 20% conseguem um fígado novo, mas o risco de nova contaminação é grande, porque o vírus permanece no sangue.
Doença silenciosa
O vírus corrói o fígado de forma lenta e silenciosa, sem sintomas físicos. A evolução da doença varia para cada pessoa, algumas levam até 20 anos para se manifestar. Quando isso acontece, geralmente é tarde demais.
No entanto, se descoberta no início, a hepatite C tem cura. “Eu sou uma prova viva de que a hepatite C tem cura”, afirma Francisco Martucci, presidente da ONG C Tem Que Saber. Ele conta que só alcançou a cura no segundo tratamento (retratamento). Uma vez negativado, as chances do vírus voltar é de 2% a 3%.
Na avaliação de Martucci, o programa desenvolvido pela prefeitura merece elogios. Ele faz questão de dizer que, embora apoie a iniciativa, a ONG não tem nenhum vínculo político ou ideológico.