Em uma das ruas mais movimentadas de Pequim, dois chineses começaram uma inflamada discussão. Rapidamente formou-se um grupo de curiosos ao redor dos dois. A discussão não cessava, os dois chineses argumentavam em voz alta e eram, em seus argumentos, bem fundamentados. Um turista inglês que também assistia com atenção a cena disse ao seu acompanhante chinês: “Isso vai acabar em briga!”. “Eu acredito que não”, respondeu o amigo chinês, “pois aquele que primeiro agredir fisicamente perderá a discussão. Sua agressão demonstrará que seus argumentos acabaram”.
Além de outros aspectos, o que caracteriza uma sociedade globalizada é a aproximação de diferentes culturas, religiões, comportamentos e estilos de vida. Uma sociedade globalizada significa acima de tudo uma sociedade pluralista. Nela, os seres humanos possuem a liberdade de escolher entre diferentes formas de vida. Sem dúvida alguma, em um país de terceiro mundo como é o Brasil, esta liberdade de escolha se esbarra na condição econômica. Mesmo assim, em comparação com um passado próximo, as opções em nossa sociedade se tornaram, para a maioria, mais diversificadas.
Porém, onde deve existir liberdade de pensamento e de estilos de vida, obrigatoriamente se exige o respeito pela opção do outro. Na convivência com o diferente encontra-se um dos grandes desafios de uma sociedade livre. Por mais contraditório que seja, uma tendência forte em todo universo social pluralista é o surgimento do fundamentalismo, ou melhor, do fanatismo. O que parece ser contraditório é nitidamente lógico, pois o fanático é justamente aquele que possui grandes dificuldades de viver em liberdade.
Fanatismo deriva do latim “fanum” (o sagrado, aquele que traz a salvação, objeto ou lugar sagrado) ou “fanaticus” (pessoa entusiasmada pela divindade). Originalmente, o fanático era a pessoa que entrava no templo, em oposição aos profanos que ficavam à porta. Fanáticos eram, na antiga Roma, certos sacerdotes que desfilavam pelas ruas vestidos de preto e armados de machados de duplo gume, dançando e se dilacerando. Com o tempo o vocabulário passou a denominar como fanático aquele que tem excesso de fervor religioso. Porém, aos poucos, o fanático foi ampliando seu campo de atuação.
Hoje o fanatismo é a capacidade de transformar opiniões ou posturas relacionadas a qualquer dimensão da vida (futebol, política, religião, sexo, profissão...) algo tão sagrado que seu oposto torna-se um “pecado”, algo inaceitavelmente tolerável. O fanático, em sua essência, é a condição de uma pessoa marcada por um valor, princípio ou critério extremamente desproporcional e absolutamente intocável. O valor (não importando qual seja) torna-se totalmente absoluto, algo realmente sagrado. O fanático segue padrões cegamente e para ele a vida não pode ser concebida fora destes. Portanto, quem é contagiado pelo fanatismo transforma-se em um exclusivista radical. Quem não comunga com suas idéias é um monstro, pecador, ignorante ou inimigo.
O grande mal desta postura pseudo-religiosa é sua falta de reflexão e superficialidade. O fanatismo vem caracterizado por uma simplificação ou generalização de idéias e conceitos somada a uma grande intensidade emocional. Em outras palavras, o fanático é geralmente aquele que não pensa e não está aberto para o pensamento. No que diz respeito aos valores que acredita, para o fanático não existe diálogo: a vida é simplesmente assim. A conseqüência da não reflexão é a utilização inescrupulosa e amoral de mecanismos e de métodos para atingir seus objetivos. O que faz com que o fanático torne-se, muitas vezes, extremamente incoerente. É o caso do fanatismo religioso que exclui pessoas e alimenta o ódio em nome da Salvação. Neste caso, “fé é o medo de ser descrente” (Millôr Fernandes).
Justamente o que se esconde atrás do fanatismo é, na verdade, o medo. O ser humano se torna fanático quando possui uma grande falta de autoconfiança e uma necessidade urgente de segurança. Exatamente por isso que o ser humano que está prestes a tornar-se um fanático é aquele que procura obrigatoriamente valores absolutos que possam lhe dar uma sensação de estabilidade. E esta tendência se fortalece justamente quando o contexto social mostra uma transformação de normas e valores. O pior é que o fanático possui também a necessidade de convencer as pessoas de que seus valores são corretos, ou seja, junto com o fanatismo surge no fanático uma consciência de missão.
A tendência ao fanatismo significa empobrecimento da vida, estreitamento dos horizontes, uniformidade de idéias e comportamentos. A vida, porém, é dinâmica e os seres humanos nasceram para a liberdade. A Educação crítica, o diálogo, a arte e principalmente a abertura para novo são formas de evitar o surgimento de pensamentos dogmatizados. Como diz um provérbio espanhol: “Quando o fogo e a água estão em guerra, é sempre o fogo que perde”.