Política

Vitória do ‘não’ reflete desproteção

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

A vitória do “Não” no referendo sobre a manutenção do comércio das armas de fogo e munição no Brasil foi uma reação da sociedade sobre o sentimento de desproteção que a Nação está sentindo, avalia especialista. Em Bauru, o “Não“ venceu com 110.762 votos, cerca de 64% e o “Sim”, teve 35% dos votos, totalizando 60.827 eleitores.

Segundo Celso Zonta, professor doutor em psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) especialista em comportamento de massa e comportamento político, as pessoas que optaram pelo “Sim” votaram contra as armas; as que optaram pelo “Não” foram motivadas por sentimentos de descrença nas autoridades e de autonomia de direito.

O “Não” venceu em todas as regiões, em todos os Estados e na maioria das cidades. Quase 60 milhões de pessoas votaram pela continuidade do comércio de armas de fogo, cerca 64% dos votos válidos, enquanto o “Sim” foi representado por 36% dos eleitores. Poucas pessoas anularam o voto, apenas 1,7%. Os votos em branco somam 1,4% e o comparecimento dos brasileiros às urnas foi grande, cerca de 78% dos 122 milhões de eleitores.

Ao analisar os votos por região, Zonta observa que apesar da vitória do “Não“ ter sido homogênea, nos Estados onde as armas de fogo fazem o maior número de vítimas o resultado foi mais apertado. “No Rio e Janeiro, um dos lugares mais violentos do País, por exemplo, a diferença não foi tão grande, ao contrário do Rio Grande do Sul, onde as armas de fogo não fazem tantas vítimas e o ‘Não’ venceu com 87% dos votos”.

A vitória do não, também foi uma vitória do sentimento do indivíduo em detrimento do coletivo, avalia Zonta. “O direito individual de poder matar quem ameaçar a sua propriedade. O indivíduo quando se entre desprotegido ele recorre a um sentimento mais bárbaro, mais visceral”, explica o psicólogo.

Na opinião do psicólogo, a sociedade não vai mudar após o referendo, o que vai mudar é a postura das autoridades, que precisam criar o sentimento de segurança na população. É preciso investir mais na luta contra o crime, contra o tráfico de drogas, policiar as fronteiras”, acredita.

Para Zonta, as pessoas que votaram pelo sim, votaram estritamente contra as armas, já as que votaram pelo não, embutiram nessa resposta uma série de sentimentos. “O primeiro é exatamente o fato de estar acreditando que o direito liberal, de comprar armas é um direito do indivíduo”, analisa.

O segundo aspecto verificado no comportamento dos eleitores, é o da desproteção aliado ao da descrença. ”Um sentimento de descrença, pela falta de políticas públicas, descrença nos políticos, nos partidos”, enumera.

A diferença do foco das campanhas veiculadas pela mídia também contribuiu para a vitória da permanência da atual legislação das armas de fogo. “Enquanto a campanha do ‘Sim’ foi calcada em princípios, a do ‘Não’ foi baseada em dois elementos irresistíveis ao público: a da autonomia do direito e o sentimento de desproteção”, analisa Zonta.

O fato apontado pelo psicólogo é que a maioria da população brasileira não possui armas, mas quer continuar com o direito de escolher. O que faltou, segundo Zonta, foi um maior debate sobre ética e o dever coletivo na escolha.

Porém, o resultado não pode ser considerado um retrocesso social, acredita o psicólogo. O momento político de instabilidade que o país atravessa desde junho também contribuiu para o resultado. “Tendo em vista a atual conjuntura política, o referendo foi num momento inadequado que contaminou os resultados, Não foi um resultado puro, no sentido que a população debateu e racionalmente e optou por uma ou outra situação”, avalia.

Para o psicólogo também houve falha na questão formulada e desinformação quanto a origem do processo. “A proposta veio do congresso, não do governo como muita gente acredita”, considera.

A falta de debates qualificados que oferecesse argumentos com conteúdo para a população também foi deficiente na opinião de Zonta. “Os congressistas que apresentaram aos debates eram do segundo ou terceiro escalão, com argumentos pouco elaborados, organizados e expressados”, critica. “E tudo isso faz parte de uma falta de organização inadequada do Tribunal Superior Eleitoral e da própria imprensa que deveriam organizar debates mais qualificados” aponta.

“Além de pouco tempo não houve de fato um debate onde se discutisse questões de princípio, questões de ética, já que o resultado primou muito pelo sentimento de insegurança da população”, considera o psicólogo.

Zonta também questionou a real necessidade do referendo, devido ao seu custo e também a sua importância. Para ele caberia ao congresso essa decisão e a população só deveria ser consultada para temas de extrema relevância e que gerasse um real impasse nacional. “Onde efetivamente há um clamor e uma divisão.

A sociedade não estava claramente argumentada sobre isso. Foi um processo criado”, argumenta. “O próprio congresso deve legislar sobre isso, porque ele é pago e eleito para isso. E se a população não tiver de acordo com suas posições, nas eleições seguintes que resolvam no voto”.

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