Um profissional que apresenta um artigo criticando o Código Estadual de Proteção Animal, de forma preconceituosa e tendenciosa, e, o que é pior, em tom de deboche e descaso, com um viés nitidamente antropocêntrico, mostra desconhecer os séculos de sujeição e o calvário de sofrimento dos animais nas mãos dos humanos.
A lei 11.977 é porta-voz de uma minoria que não pode e nem consegue lutar por seus direitos. Acabassem hoje os animais, terminaria também a vida humana. Sem o uso e a apropriação de milhares de produtos e subprodutos advindos dos bichos, não haveria chance de sobrevivência para nós. É a prova de que somos apenas um elemento da cadeia de seres vivos e da natureza. Sejamos humildes e agradecidos. Toda lei de proteção animal, ou esse código, é um resgate moral, reflete o abandono do pensamento cartesiano, reducionista, etnocêntrico, e mostra que se pode avançar eticamente em todos os setores.
Em uma das cartas a esta tribuna, um pecuarista afirmou o que queríamos ouvir, que em sistema de confinamento, o gado não anda. Terrível! Os que criticam os direitos dos animais deveriam colocar-se um dia na situação deles. Se acham que seis horas de trabalho para um animal de tração é pouco, eu acho que uma pessoa não agüentaria quinze minutos, nas condições brutais em que ele trabalha: peso excessivo, lugares íngremes, debaixo de chicotadas e pauladas, com todas aquelas correias e freios de boca a machucar-lhe o corpo, o dia todo sem água ou comida, sob sol ou chuva, doente, machucado ou prenhe, sem ganhar nada, apenas o abate quando velho ou inválido.
A sociedade vive um simulacro, uma banalização da realidade. Um exemplo disso é a turma do não, vencedora do referendo, que arrumou um eufemismo para justificar os verdadeiros motivos da posição pró-armas: voto de protesto, de contestação ao governo. Pode ser para alguns, mas para outros não. Deixemos de mentiras, tais pessoas apresentam perfil truculento, ganancioso, despolitizado, conservador (ou adeptas da imoral caça “esportiva”), querem o posto perpétuo de xerife, pretendendo fazer justiça com as próprias mãos. A notícia do JC (25/10/05) vem a calhar: “Menino de 10 anos mata o padrasto com cinco tiros”. Mais uma vida estragada, a do garoto, é lógico.
Por sinal, um alento de esperança tivemos com a atuação segura e efetiva do promotor do meio ambiente, Luiz E. Sciuli de Castro, que entrou com uma ação civil pública e conseguiu a liminar que suspende o rodeio na Expo2005. Os pecuaristas pretendem recorrer, mais uma vez insistindo em não entender as respostas da natureza e da produção animal intensiva. Tufões, secas, febre aftosa, gripe aviária, etc., etc. (pasto para gado é uma das principais causas do desmatamento). Vamos colaborar para a sanidade geral.
Pedro de Souza Meira - RG 27.849.708-1)