Pesca & Lazer

História de pescador: As piaparas que o pescador não comeu


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“Trabalhei dez anos na Usina Hidrelétrica Nova Avanhandava, em Buritama, pertinho de Birigüi. Naquele trecho do rio Tietê a gente encontra ainda muita vida aquática e também existem muitos animais silvestres nas duas margens do grande rio. A água do rio Tietê em Nova Avanhandava parece que, por milagre, é bem limpa. O lugar é muito bonito de se ver cardumes de várias espécies encostando na barragem, subindo o rio, tentando desovar.

É muito bonito a gente ver bandos e mais bandos de patos selvagens passeando de margem a margem e sobre o leito do rio. Também se vê ainda algumas capivaras, lontras, garças, tatus e outros animais que, por milagre, continuam vivos. No lago da usina, em 1995, resolvemos fazer um pesqueiro. Apesar de os freqüentadores serem todos trabalhadores da usina, pedimos permissão à Cesp, porque o pesqueiro se localizava dentro do canteiro, bem no início da montante, entre a eclusa e a usina.

Obtivemos tal permissão e mãos à obra: fizemos um belo pesqueiro, todo com placas de concreto (restos da construção da usina), construímos um rancho com uma ampla área coberta e sanitários masculino e feminino. Adquirimos umas três churrasqueiras de chapas de ferro grosso, vários espetos e algumas grelhas, confeccionamos um estatuto e começamos a freqüentar o local. Deitamos ceva no rio. As barcaças que passavam nos forneciam parte do produto para a ceva e nós levávamos os mais variados alimentos para os nossos amigos de escama.

Aquilo é que era vida: churrasco, cervejas (muitas cervejas) e viola, ah! Ia quase me esquecendo, tinha também a pescaria (as varas ficavam armadas lá nas pedras e vez ou outra a gente ia verificar o que tinha acontecido). Sempre pegávamos alguns peixes: piaparas, piaus, pacus, caroço de manga, tilápias, curimbas e outros. Éramos ali uns 50 sócios, dentre eles estava o Aparecido Secco, que por seu porte físico a gente o chamava de ‘Sequinho’.

Sequinho é pescador dos bons, não bebe, não fuma e acho que não mente, é realmente uma boa criatura. Num belo dia, o Sequinho resolveu pescar lá no nosso pesqueiro e, segundo ele, naquele dia o rio estava generoso; pegou muitas piaparas e muitos piaus. Quando a tarde chegou, o Sequinho estava com o covo quase cheio e resolveu ir embora.

Chegando em Birigüi, o Sequinho passou na casa de seu irmão e deixou alguns peixes, passou também na casa do seu pai e também deixou outro tanto, por fim, passou no bar de um outro seu irmão e também deixou uma boa porção de pescado. Chegando em casa, já escurecendo, estacionou o carro na rua, pois precisava colocar um carro mais para o fundo do corredor, (o Sequinho tinha dois carros) para depois entrar com o outro. Retirou as tralhas colocando-as na calçada, entrou tranqüilo e ajeitou o carro, mas nesse intervalo passou por ali o caminhão coletor de lixo e recolheu tudo que estava na lixeira, inclusive uma sacola com umas 20 piaparas que o Sequinho inadvertidamente havia colocado ali.

Gente do céu, foi aquela correria, aquela gritaria, aquela baixaria. O Sequinho correndo atrás do caminhão, gritando e gesticulando, a esposa do Sequinho brava igual uma caninana, correndo atrás dele e gritando também, o cachorro correndo atrás dos dois e latindo feito louco, os vizinhos saindo na calçada pra ver o que acontecia.

Foi realmente um espetáculo muito legal (uma boa vídeo cassetada) até que os coletores de lixo perceberam e pararam, mas, para a infelicidade do Sequinho, a sacola já havia sido triturada e prensada pelo caminhão. O Sequinho ficou uns dois meses comentando e lastimando tal fato e acho que até hoje ele não fez uma pescaria tão boa quanto aquela.”

Ivo de Jesus Ribeiro, aposentado, é pescador e contador de história (algumas verdadeiras

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