Política

‘Intelectuais têm culpa na crise do PT’

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 12 min

Agora que o País atravessa uma crise de identidade política, parece fácil criticar a atitude do governo petista. Mas desde o início do mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o escritor, professor e historiador Ney Vilela já analisava de modo mais crítico as atitudes do governo. “Agora muitos me dão os créditos”, brinca.

Para o historiador, grande culpa da crise está nas mãos dos intelectuais que se omitem numa hora que o País mais precisa de um debate aberto e sem preconceitos. “Onde está a senhora Marilena Chauí que durante anos acusou todos os outros de se calarem?”, critica Vilela, se referindo à filósofa que foi uma das articuladoras da ideologia do Partido dos Trabalhadores.

Natural de Ubatuba e com raízes familiares que se encontram em Alagoas e no Líbano, atualmente Ney Vilela divide seus dias entre São Carlos e Bauru, nas aulas de história de um cursinho preparatório e na publicação de artigos na imprensa, que originaram o seu 12.º livro, Frágil Gigante (editora Rima), uma compilação de 40 artigos publicados, que segundo o autor, compõem um verdadeiro retrato dos últimos quatro anos do País.

O livro será lançado no dia 16 de novembro às 20h, no colégio onde dá aulas, e fala sobre o maniqueísmo que a democracia brasileira se tornou, grande parte por culpa dos intelectuais. Segundo Vilela, esse maniqueísmo continua a dividir o País entre “bons”, que defendem os trabalhadores, e os humildes e os “maus”, que são pela exploração.

E para resolver o problema de identidade política nacional que a atual crise deflagrou, o historiador convoca toda a sociedade a discutir, não sobre quem são os culpados pela situação, mas sim que plano de governo e que Brasil queremos. A seguir, a entrevista.

Jornal da Cidade - Quem é o frágil gigante do título do livro?

Ney Vilela - Frágil Gigante é o Brasil. É gigante pois temos muitos recursos, um território grande, um provo trabalhador. E somos frágeis pois não conseguimos sair dessa condição de subdesenvolvimento. Então o livro é sobre o Brasil contemporâneo. O livro foi feito a partir dos meus artigos de jornal. Vistos individualmente eles são impressionistas. Eu falo de um determinado assunto sobre uma ótica diferente. Um quadro de Van Gogh é um quadro impressionista. Cada pincelada é forte, mas parece desconectada das pinceladas em torno. E você só percebe, observando de longe. E essa é a idéia do livro. Os 40 artigos lidos em conjunto formam uma imagem precisa de porque o Brasil está como está.

JC - Como surgiu a idéia do livro?

Vilela - Há quatro anos as pessoas me acusavam de ser extremamente conservador, um pessoa que não acreditava na possibilidade de se ter um presidente operário. E nos últimos quatro meses estas pessoas chegaram à conclusão de que aquilo que eu escrevi tinha algo a ver. Começaram a enxergar minha posição. Não que eu seja um cara esperto. Esperta é a minha ciência. Eu sou um historiador e olhando para os fatos, um pouco como repórter, um pouco como historiador, eu não podia escapar das conclusões que eu tirei há quatro anos e que agora estão se comprovando. Aí meu editor em São Carlos ficou com remorso de ter achado que eu era muito reacionário e sugeriu juntar meus artigos para transformar num livro e eu topei.

JC - E como chegamos a esse ponto?

Vilela - Muito mais da metade dos intelectuais do Brasil têm parte da culpa dos problemas que vivemos hoje. Eu diria que quando você estuda, os professores dividem a história em dois grupos: o dos bons, os fracos oprimidos, trabalhadores e os que não prestam, os exploradores, a burguesia. De acordo com a ótica desses intelectuais, toda vez que você se coloca como uma pessoa que defende a posição dos fracos e dos oprimidos, você está do lado direito de Deus, está a favor da história e está correto. A eleição do Lula da Silva, do jeito que transcorreu, fraturou o País em dois. Quem era pobre falava que os políticos não prestam, os burgueses não prestam, os que ficam estudando em seus escaninhos nas faculdades não prestam. Todos os que lutam pelos trabalhadores prestam. Aí elegemos pessoas que possuem discursos, mas não tem proposta. Eles têm ideologia, mas não têm plano de governo.

JC - Mas a eleição do Lula não pode ser encarada como uma última tentativa, já que nas anteriores foram eleitos o Collor e o Fernando Henrique Cardoso e que agora estava na hora de dar uma oportunidade à esquerda?

Vilela - Por que última tentativa? Nas minhas contas foram só duas. Será que nós não estamos de novo dividindo o mundo em dois grupos? O Brasil é um País muito complexo. Independentemente do presidente ser um operário metalúrgico, um sociólogo mundialmente conhecido ou um janota de uma família tradicional de Alagoas, a questão não é saber qual é o presidente, mas qual é o projeto de País. Quando você fala que a burguesia explora e os operários são explorados, você não discutiu esse País na sua complexidade. O operário brasileiro é muito diferente do camponês brasileiro, que é muito diferente do marginalizado urbano, que é muito diferente do marginalizado rural, que é diferente do profissional liberal, que é diferente do comerciante, do pequeno industrial, do grande, do banqueiro. E nós dividimos o Brasil em apenas dois grupos! Nós nunca discutimos um projeto nesse País nos últimos 25 anos! E não é uma obrigação do cidadão comum discutir projetos, mas é dos intelectuais. Nós ficamos discutindo se há um lado explorador e se há o que está do lado direito de Deus ou de Marx e que vai fazer a redenção do povo. À medida que caminhamos nessa situação, nunca discutimos a sério quais são os nossos problemas e como resolvê-los. Por exemplo: os jovens vão para o ensino fundamental para que? Para se socializar e comer uma refeição. Mas há necessidade de outras coisas, eles deveriam estar nas escolas para, por exemplo, estudar. Quando você põe o jovem no ensino médio ele está se preparando para passar numa faculdade? Para aprender uma profissão? Para receber uma grande massa de informações que depois ele vai manipular do jeito que ele achar interessante? Nós não sabemos, nós não temos projetos educacionais.

JC - É sempre um pensamento maniqueísta, então. As pessoas simplificam dessa forma para não ter que pensar na realidade dos fatos?

Vilela - Exato. E é essa a acusação que eu estou fazendo aos intelectuais: maniqueísmo. E olha só o absurdo, agora que todos os problemas estão transparentes, que temos um partido que traiu a esperança popular e se mostrou incompetente em administrar esse país, agora que tudo isso aconteceu, o que esses intelectuais fazem? Mantêm-se em silêncio! Não é exatamente essa a postura da senhora Marilena Chauí, uma das representantes desses intelectuais que eu estou acusando. Deixe-me fazer uma pergunta: quantos intelectuais se pronunciaram na questão do referendo do desarmamento? Onde eles estavam? E aí nós temos problemas muitos curiosos. O governo que propôs esse referendo é formado por muitos ex-guerrilheiros que usaram armas para mostrar suas idéias. Agora dizem que o povo deve ser desarmado e eu me pergunto, por que? Há uma contradição. O governo que lutou tanto pelo sim, na reta final não apareceu na campanha. Naturalmente não vou acusar o Lula de ser um intelectual, mas de qualquer forma eu pergunto: onde estão os intelectuais orgânicos do PT? Onde estão os intelectuais que dividiram o Brasil de maneira maniqueísta entre opressores e oprimidos? Será que diante desta escassa participação da inteligência brasileira, nós podemos acusar nosso povo de votar mal?

JC - E o que, então, deve ser feito?

Vilela - Volto a dizer que nosso país é muito complexo. O que mais precisamos hoje é debate. Um debate a respeito de tudo e que não seja preconceituoso. Precisamos escutar todos e aceitar que todos os grupos tem interesse e que as pessoas, eventualmente, tem seus interesses particulares. Não é crime isso. Criminoso é não debater. Nós estamos numa grande crise porque não houve debate. Nós tivemos um comportamento autoritário daqueles que se diziam donos da verdade e o esmagamento de todos aqueles que podiam pensar de maneira diferenciada. Que isso nos sirva de lição. Agora que estamos em crise, que tal fazer um debate mais fraternal, reunindo as múltiplas visões de mundo que os múltiplos grupos sociais possuem?

JC - O que precisa ser debatido, então?

Vilela - Não se pode ter qualquer tipo de preconceito. Todos utilizando suas ciências e seus respectivos interesses são importantes para se saber o que vamos fazer desse País. Nós estamos precisando de um projeto educacional, de um projeto de crescimento econômico, tecnológico, de um projeto político. Saber exatamente qual a dimensão de estado que queremos. Precisamos de muita coisa mas continuamos com um debate muito rasteiro. Nesse momento qual a grande crise que temos? O partido que chegou ao poder em 2002, não faz auto-crítica. Dizem que todos os problemas deles estão relacionados a uma luta pelo poder, que a elite que tirá-los do poder. O que interessa é o seguinte: será que realmente estamos no meio de uma luta pelo poder entre elite e forças populares? Será que é isso mesmo que está ocorrendo? O governo não percebeu que as grandes acusações contra ele partiram de aliados. Roberto Jefferson era um aliado e nem fui eu nem você que pedimos ao governo que se aliasse ao PTB. Será que vamos aprender com o debate e com a crise, dizendo que na verdade é um jogo reles de poder ao invés de tentar perceber exatamente que faltou projeto para que o PT governe? É uma questão que eu considero bastante importante agora.

JC - E quem seriam esses intelectuais que o senhor critica?

Vilela - Nesse momento uma das acusações que se faz a esse governo é o excesso dos cargos comissionados e de confiança. Nesses cargos encontramos muita gente que trabalhou para que o PT chegasse ao poder. Esses intelectuais deveriam ter projeto de governo e não têm. Essa crítica é para eles. Eu estou criticando os intelectuais, que baseados numa premissa ideológica ultrapassada - e eu gostaria de lembrar a esses senhores que o muro de Berlim caiu - continuam olhando para o mundo como se ainda estivessem em guerra fria. Eles estão em muitos lugares, mas trabalhando pouco. Quem eu livro de crítica? Os que estão produzindo. Mesmo que eu não concorde com a ideologia deles. Os que se aboletaram nos órgãos públicos devem muito à sociedade. E se não conseguem caminhar com seus projetos, que por favor, peçam demissão. Eles custam caro. A postura dos intelectuais que chegaram ao poder só merece um qualitativo: ditatorial. Eles têm que lembrar que não foram eleitos pela maioria. Lula da Silva teve três vezes mais votos que o PT.

JC - E partidos mais radicais de esquerda? Muitos que deixaram o PT migraram para eles. Eles são a solução?

Vilela - Na sabedoria do meu avô, eles estão tão perdidos quanto um cachorro que cai da mudança. Eles possuem uma visão de mundo arcaica, romântico-stalinista. Por que caíram da mudança? Porque na hora de administrar a Nação, fica bem evidente que um País complexo, dentro de uma economia de mercado, num mundo globalizado, ideologia ajuda pouco a governar. A percepção da complexidade do País é que permite que você gerencie o governo, buscando encontrar o interesse da maioria nos diversos assuntos. Por exemplo, eu tenho certeza que tanto o operário do chão de fábrica, quanto o industrial querem a queda da taxa de juros. Então, como você chega e tenta governar partindo de uma premissa tão antiga e tão excludente que diz que tem o operário de um lado e burguês do outro? Esses partidos estão no meio da crise e muito provavelmente não perceberam qual é a crise. Estão achando que ocorreu uma crise ideológica no PT, mas na verdade foi uma crise de projeto. Estão procurando um remédio ideológico para um problema administrativo e conseguiram encontrar uma saída para trás.

JC - E essa visão de descrédito que a população tem dos políticos, de onde vem?

Vilela - Durante 25 anos os intelectuais contribuíram com essa visão de que nenhum político presta. Aí que qual a imagem que fica? Depois chega na hora da eleição, e as pessoas têm plena convicção que nenhum político presta, aí vota em quem? Naquele que te oferece alguma cosia em troca do voto. Há 25 anos estamos escolhendo o que há de pior e a nata está aí. Falando durante 25 anos que político é tudo canalha, quando o jovem pensa em entrar na política, ele pensa: não quero ser canalha, então ele nem lê o que o pensamento que não é de esquerda escreveu.

JC - E a solução para isso tudo é o debate?

Vilela - Eu quero reunir todos os que pensam das maneiras mais diferentes possíveis. Vamos para um debate da maneira mais limpa possível. Usando uma analogia futebolística: vamos começar a jogar na bola e não na canela do adversário. Por favor não venham me dizer que eu sou um reacionário canalha que não quer que a esquerda de certo. Eu quero que de certo o País. Precisamos chacoalhar os intelectuais. Eu não estou aqui demonizando os intelectuais, eu estou chamando eles para um debate. Eu estou demonizando a Marilena Chauí. É um absurdo que essa senhora que passou décadas acusando todos os outros e quando recebe uma acusação, se silencia. Ela está errada. Que todo mundo venha para o debate. Quero que venha um intelectual e mostre todas limitações daquilo que eu estou pensando. Ele vai me fazer um enorme bem.

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