Cultura

A simples vontade de tocar

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Em um mosteiro medieval conservava-se uma harpa mágica, da qual, segundo antigos pergaminhos, brotaria uma melodia maravilhosa no dia em que fosse dedilhada por um artista capaz de tocá-la devidamente. Atraídos pelos escritos e com a esperança de se tornarem famosos, muitos iam ao santuário, garantiam que eram grandes harpistas e pediam que lhes deixassem tentar tocar a harpa mágica. Mas todos fracassavam, pois do instrumento só saiam os mais desagradáveis ruídos.

Tanto os monges que viviam no mosteiro como todo o povo do lugar já haviam perdido as esperanças de que pudesse aparecer alguém capaz de tocar aquele instrumento misterioso. Um certo dia apresentou-se ali um andarilho. O homem não conhecia a lenda da harpa, mas ao saber de toda a história pediu aos monges que lhe deixassem tocar o instrumento musical. O povo do vilarejo reuniu-se rapidamente no pátio do mosteiro, mas ninguém imaginava que o desconhecido chegaria a conseguir aquilo que tantos célebres músicos haviam fracassado. Porém, quando o homem começou a dedilhar o instrumento com delicadeza, como se estivesse acariciando as cordas com os dedos, tinha-se a sensação de que a harpa e o harpista haviam sido fundidos em um único ser.

Todos ouviram, então, uma melodia com a qual sequer poderiam ter sonhado. Por fim, o homem acabou de tocar e devolveu com grande reverência a harpa aos monges. Estes, maravilhados, perguntaram-lhe como conseguira tocar aquela música com um instrumento do qual os mais famosos músicos não haviam sido capazes de tirar sequer uma nota afinada. O andarilho pensou um pouco e respondeu: “Talvez, todos estivessem preocupados com a opinião do público e com sua própria fama. Eu estava somente com vontade de tocar!”

A grande preocupação dos filósofos romanos do início da era cristã era a busca da arte do bem-viver, ou seja, a busca de tornar a vida uma maravilhosa música. Nesta procura de harmonia entre os dedos do sujeito e as cordas da harpa da vida, Plutarco não somente desenvolve uma reflexão sobre o próprio sentido da música da existência, mas também recomenda determinados exercícios que o músico da história deve praticar.

Um de seus exercícios principais está relacionado à memória: lembrar sempre o que temos na cabeça, o que aprendemos. Um provérbio muito conhecido na antigüidade ocidental era “abrir seus próprios cofres”, ou seja, regularmente, ao longo do dia, recitar o que se aprendeu de cor, lembrar as sentenças fundamentais que se leu. Relacionado à memória está a revisão do dia no momento de dormir. Antes de cair no sono, todo ser humano deveria rever, como que em um sonho, todos os momentos vivenciados durante a viagem daquele dia e retirar deste período da existência lições de aprendizagem.

Porém, o mais interessante em Plutarco são os exercícios contra a “curiosidade negativa”. O filósofo, por exemplo, recomendava a prática de caminhadas sem olhar para os lados. Deve-se, dizia Plutarco, caminhar pelos cemitérios sem distrair-se lendo as inscrições sobre os túmulos que informam acerca da vida das pessoas. Na verdade, o que Plutarco reprovava era a curiosidade extrema de saber o que ocorre de mal com o outro. Para transformar a existência em uma harmoniosa melodia é necessário desvencilhar-se do olhar maldoso, malicioso, malevolente sobre o outro e concentrar-se no caminho reto que se há de observar, que se há de manter, na direção de uma meta.

Existem pessoas que são viciadas em observar o negativo da vida alheia e deixam de canalizar suas energias para tornar suas próprias ações construtivas e frutíferas. Em outras palavras, muitas pessoas deixam de realizar para simplesmente observar. Mas Plutarco critica não somente à observação passiva, mas a observação necrofílica, ou seja, o gosto em assistir as quedas, os erros, as situações difíceis dos outros.

Para Marco Aurélio, é necessário concentrar-se em si mesmo para não se deixar levar pelo turbilhão de pensamentos fúteis e maldosos: “Buscando imaginar o que faz tal pessoa, e por que, o que diz, o que pensa, os planos que organiza, e outras ocupações deste gênero, que te fazem levar-te pelo turbilhão e negligenciar teu guia interior”.

Aqui trata-se de uma concentração teleológica: olhar para a sua própria meta. Como o atleta se concentra na preparação para uma corrida ou luta, diz Marco Aurélio, devemos nos concentrar em nosso próprio desempenho. Aqueles que verdadeiramente se concentram em suas próprias realizações possuem a tendência de valorizar as conquistas dos outros e compreendem com muito mais facilidade suas falhas ou quedas. Para Millor Fernandes, o crítico no sentido negativo da palavra, aquele que investe sua energia para descobrir o que acontece de errado na vida das pessoas ativas é o “impotente que faz tudo para brochar os outros. Quando não consegue isso, pelo menos evita que tenham orgasmo”.

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