Polêmica e cheia de temas e campanhas, “América” chega ao fim na sexta-feira, dia 4, como uma das maiores audiências dos últimos tempos, mas está longe de ser uma unanimidade. Enquanto especialistas em teledramaturgia criticam vários pontos da trama de Glória Perez, entidades de auxílio a deficientes visuais, por exemplo, comemoram a discussão proposta pela novela.
A uma semana no fim, a reportagem faz um balanço de “América”, que se dividiu entre Rio, Miami e Boiadeiros. “Os erros foram muitos, mas a novela tem seus méritos. Do ponto de vista da dramaturgia, a história central (o romance de Sol e Tião, a imigração e o mundo dos rodeios) foi muito fraca. O que salvou a audiência foram as tramas paralelas que ganharam espaço”, analisa Maria Lourdes Motter, professora da USP. Como personagens que cresceram, ela cita Raíssa, Carreirinha, Glauco e Lurdinha e Dinho e Neuta. A especialista diz ainda que, apesar dos arranjos por que passou “América”, nem tudo deu certo. “A novela não teve nada de especial, só preencheu um espaço na grade da Globo e prendeu a atenção do telespectador.”
Para o sociólogo Laurindo Leal Filho, também professor da USP, o lado positivo ficou centralizado nas questões sociais e nas curiosidades sobre o mundo dos rodeios. “O objetivo da audiência elevada foi atingido graças à enorme variedade de temas e de tramas familiares, que sempre despertam alguma identificação em quem está em casa. São de fácil assimilação”, diz.
Já Mauro Alencar, doutor em telenovelas, destaca as campanhas sociais. “Foi a coisa mais importante da trama, que teve também um ‘quarteto’ amoroso interessante, formado por Glauco, Lurdinha, Haydée e Nina. Foi algo novo na teledramaturgia”, diz o pesquisador, que também destaca a personagem Irene (Daniela Escobar) e as participações de Francisco Cuoco e Nívea Maria.
Em um ponto, porém, todos concordam: a abordagem da deficiência visual foi um acerto de “América”. “A forma de tratar a deficiência evoluiu por causa da novela. A procura por informação cresceu muito e recebemos e-mails até de outros países”, fala Rosângela Ribeiro Mucci Barqueiro, relações institucionais da Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual. Para ela, a trama global representa um marco na história da deficiência no Brasil. “Acho que conseguimos virar uma página na questão dos deficientes. Mostramos ações, soluções e a busca de identidade de quem tem uma deficiência. Ajudamos a quebrar preconceitos”, fala o ator Marcos Frota.
Para Daniela Escobar, intérprete de Irene, a novela mostrou problemas da realidade. “Exemplos foram a ignorância da mãe que tinha vergonha da filha cega e o dilema do rapaz gay que ainda não sabe para qual lado pende, que foi abordado de forma humana e séria”, finalizou.