A missão não seria fácil. De um lado, um exército profissional, treinado e bem armado. Do outro, tropas voluntárias, pessoas simples, retiradas de suas funções pacíficas. Vitórias e derrotas se sucediam, em pelejas que o próprio tempo se incumbiria de decidir. O comandante das forças nacionais era um agricultor de Mont Vernen. Várias vezes revelara a sua capacidade no comando de tropas de resistência, convocadas para a defesa dos interesses da incipiente nação em busca da independência.
Ao recordar a biografia de George Washington, o primeiro presidente dos EUA, vêm-me à memória modelos e exemplos de desprendimento que, de certo modo, dignificam o homem e podem servir de inspiração para que se volte a acreditar na humanidade.
O que mais me impressiona em George Washington, (1732-1799), comandante-em-chefe dos exércitos revolucionários americanos, é a inspiração profunda de quem deseja deixar para a história, um retrato fiel de suas intenções pacíficas e libertárias. Na guerra árdua contra a poderosa Inglaterra, Washington comandava voluntários que, volta e meia eram obrigados a abandonar a luta para cuidar de seus afazeres na lavoura.
Washington traduz um retrato de corpo inteiro do que se espera de um presidente dos Estados Unidos. Homem do povo, revolucionário, não queria estar presente, nas horas de decisão dos cargos, quando o seu nome era obrigatório nas conversas preliminares. O primeiro presidente de um povo livre no continente se impunha por si mesmo, pelas suas qualidades e pelas suas virtudes comprovadas no campo de batalha.
O agricultor de Mont Vernen é o verdadeiro senhor da guerra. Já sou bastante grandinho, experiente e de modéstia bem dosada, para saber que não posso aconselhar nada a ninguém, que não guarde coerência com o tamanho de minhas pernas. Grandes o suficiente para me permitir apenas um passo seguro entre Ribeirão Preto e Campinas, no meu Brinco de Ouro, protegido pela fúria de uma tribo de vinte e poucos mil jovens que ajudei a fundar.
Posso agora, e é o que vou fazer neste espaço, pedir para que nas manifestações contra a visita de Bush Jr. ao Brasil não o proclamem ou intitulem como senhor da guerra. Quem pede permissão à conselheira da Casa Branca, Condoleezza Rice, para ir ao banheiro não é senhor nem de suas necessidades mais fisiológicas. Por respeito aos leitores e ao bom gosto, penso que Bush Jr. não é dono nem do próprio focinho, evitando citar outros órgãos, que se é que tem, certamente também não comanda.
Em 1970, a pedido do pai, autorizaram a transferência de Bush Jr. para o Alabama a fim de trabalhar como diretor político na campanha de Winton M. Blount para o Senado. Perdeu as credenciais de vôo nesse mesmo ano por ter faltado aos exames médicos. Ninguém poderá chamá-lo de fatalidade histórica, já que, afinal, trata-se de um desastrado conhecido. Em setembro de 1973 foi autorizado a terminar seis meses mais cedo o seu compromisso de seis anos para poder freqüentar Harvard. Passou à reserva pouco antes de ser disponibilizado no dia 1 de outubro de 1973. Durante a sua vida política, têm sido levantadas dúvidas sobre se ele cumpriu ou não os seus deveres de cidadão americano.
Bush tornou-se presidente em 20 de janeiro de 2001, sendo vitorioso em uma das mais questionadas eleições gerais da história dos Estados Unidos, derrotando Al Gore, do partido Democrata, por apenas 5 votos do colégio eleitoral norteamericano. Gore venceu no voto popular com uma vantagem de mais de 500 mil votos. O colégio eleitoral “nomeou” um candidato diferente da vontade popular graças a poucos votos vindos da Flórida, estado governado na época por Jeb Bush, irmão de George. E até a validade de votos foi centro de disputas judiciais.
Que diferença profunda entre o primeiro presidente dos EUA e este que em breve visita nosso país. O primeiro assumiu a função com um profundo desprendimento, aceitando-o mais como sacrifício do que como honraria, depois de comandar uma legítima revolução popular. O atual presidente americano é a mais curiosa imperfeição escolhida para representar a oligarquia financeira e seus interesses patrimonialistas.
Que nossa verdadeira e boa gente siga o exemplo de sinceridade, bravura e capacidade do humilde americano George Washington, este sim, um verdadeiro senhor da guerra, da paz, da independência e da liberdade.
O autor, Djalma Batigalhia, é diretor de marketing na área gráfica e comunicação visual