Quem não é da região e passa pela quadra 1 da rua Sebastião, que liga a Vila Falcão à Vila Nova Esperança, ainda acha que o prédio localizado ao lado da linha férrea, com torre e espaço para sino, é uma igreja. A construção, com elementos do estilo neo-colonial, remete à arquitetura característica de igreja católica, mas está fechada há vários anos. Após abrigar a Capela de São Sebastião e posteriormente uma igreja evangélica, agora, o prédio está à venda.
Na verdade, trata-se de um imóvel particular, erguido por Antônio Sebastião, devoto de São Sebastião, em 1959, dono de uma chácara na região. “Eu gostaria que continuasse abrigando uma igreja, mas coloquei à venda porque o prédio está fechado e com infiltrações. Se não arrumar, vai acabar caindo”, explica o aposentado Amauri Ferreira Sebastião, sobrinho e um dos herdeiros de Antônio Sebastião.
Mas Amauri conta que não está fácil vender a ‘igreja’. “Eu até tirei a placa de ‘vende-se’ porque não aparecia quase interessado. Teve um, que queria comprar para fazer um depósito, mas não deu certo porque o prédio foi construído para ser uma igreja”, comenta. Ele está pedindo R$ 60 mil pelo prédio de cerca de 240 metros quadrados, com um total de aproximadamente 200 metros quadrados de área construída.
Amauri relata que no final da década de 80 seu tio construiu outra igreja para a Comunidade de São Sebastião, a poucos metros à frente da que está à venda, para facilitar a divisão da herança. “Acho que foi em 1987 ou 1988. Tudo foi transferido para o prédio novo, que foi doado à Igreja Católica. Depois aluguei o prédio para uma igreja evangélica, que ficou uns quatro anos lá”, comenta.
Quando os evangélicos foram embora, a filha de Amauri, Teresinha de Fátima Ferreira Sebastião, montou uma loja no prédio. “Não deu certo. Entravam e roubavam as coisas”, revela, mostrando as janelas que foram fechadas com argamassa exatamente para aumentar a segurança do imóvel.
São desta época as palavras “tapetes”, “blusas”, entre outras, cravadas na porta de madeira da igreja. Ao entrar no prédio, agora vazio, Teresinha, apesar de atualmente ser evangélica, não esconde a saudade. “As missas eram lotadas. Fiz minha primeira comunhão aqui. No lugar destas infiltrações, nas paredes e no teto haviam pinturas retratando Jesus Cristo e a Virgem Maria”, lembra.
Concorda com ela Maria Emília Frausino, que é catequista na atual Capela de São Sebastião. “Na ocasião da mudança, de uma igreja para outra, sofremos muito. Mas era preciso porque a atual é maior. E tudo - altar e imagens de santos - foi transferido”, relata.
Atualmente, a Capela de São Sebastião, pertencente à Paróquia de Santa Clara de Assis, é freqüentada por cerca de 100 fiéis, moradores principalmente do Jardim da Grama e da Vila Santa Filomena. “É uma comunidade pequena, mas temos missa em dois domingos do mês e celebração nos outros dois. Temos catequese, grupo de jovens e outros grupos”, enumera.
Mas apesar de passar todos os dias em frente à antiga igreja, a caminho do trabalho, Carlos Roberto Lourenço, que mora na Vila Nova Esperança, ainda achava que o prédio continuava como templo católico. “Pelo tipo do prédio, achei que continuava sendo igreja. Tem torre e tudo. A gente passa em frente, mas não presta muita atenção”, justifica.
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Pinturas
Além de torre, altar e sacristia, a antiga Capela de São Sebastião, cujo prédio agora está à venda, também tinha as paredes e o teto decorados com motivos católicos. As pinturas, da qual Amauri Ferreira Sebastião, dono da “igreja”, se orgulha, foram feitas por Alberto Paulovich, um artista que morava na Bela Vista a pedido de Antônio Sebastião, dono da chácara e construtor da igreja.
O trabalho demorou 11 meses para ficar pronto, de acordo com Amauri. “Eram umas pinturas muito bonitas, mas quando aluguei a igreja para os evangélicos, eles pintaram tudo por causa das imagens católicas”, relata.
Nilson Ghirardelo, vice-presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac), esclarece que o prédio da igreja que hoje pertence a Amauri não está entre os listados para fins de tombamento. “É um prédio com traços neo-colonial simplificado, um neo-colonial tardio. É um edifício com proporção, mas não vejo importância arquitetônica que motive o tombamento. Tem também sua relevância histórica, mas há outras igrejas em Bauru já tombadas por este motivo”, frisa.
Para ele, as pinturas, se não tivessem sido encobertas, mereciam análise histórico-cultural. O Codepac já tombou cinco igrejas em Bauru: a de Santa Teresinha, a do Instituto Lauro de Souza Lima, a de Santa Casa de Misericórdia, a Tenrikyio e a Presbiteriana.