Cultura

Um ato de f


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Creio em Deus, Pai todo poderoso. Creio em São Paulo das treze listras, proclamou Ibrahin Nobre em 1932. “Creio em ti, porque me deste o riso e a dor; me deste o amor”, cantou o poeta.

Creio e, crendo, busco “a luz que existe para além da escuridão” na certeza de que não realizo um ato insano ao mergulhar na escuridão, pela escuridão. Uma convicção pessoal, ímpar, jamais coletiva, me impulsiona para a ação que medeia entre o mais simples ato de fé, qual seja servir-me de uma salada num restaurante qualquer, ao mais complexo e instigante enigma da criação do universo que me convence, cada vez mais, de que o nada não é capaz de criar nada; logo, algo (não uma explosão, ela também seria resultado, no mínimo de um extraordinário atrito) ou alguém, incriado criou, causou sem ser causado ou, reafirmando, foi causa de si mesmo.

Em qualquer dos momentos em que minha fé é acionada, por mais díspares em grandeza ou significado, eu respondo crendo. Assim, em situações rotineiras e corriqueiras, eu creio que pessoas que me são desconhecidas, prepararam com cuidado e com higiene o alimento que consumo; creio que a fiscalização sanitária cumpre com o seu dever e fiscaliza, efetivamente, os estabelecimentos que me servem; creio, ao estender a minha mão no escuro de meu quarto, na madrugada, que alcançarei o interruptor, e a uma leve pressão a magia da eletricidade desfará as sombras da noite. Creio.

Eu creio, na medida em que constato, às vezes empiricamente; eu constato, na medida em que busco e eu busco na medida em que tenho fé, ainda que seja tão somente móvel ou base de minha capacidade de buscar. Buscando, permito a mim mesmo o permanente espanto da descoberta e é desse espanto que nasceu a ciência, no dizer de Aristóteles, porque criou para ela a necessidade não só de constatar que as coisas são, mas por que são como são.

Porque eu cre-io, eu me sinto permanentemente banhado de esperança. Pintando de verde a paisagem da minha existência ela me impulsiona a agradecer, porque me mantém feliz. Não será uma crise política, por mais desalentadora, capaz de derrubar o meu espírito; não será uma tempestade de sofrimento que, abatendo-se sobre o meu jardim, devastará as raízes ainda que arranque as flores fragilizadas.

O sofrimento e o medo existem e existem dentro de mim; convivem entre si e convivem com a esperança realimentando-a. Tenho, pois, que encará-los de frente já que não depende de minha vontade decidir se quero ou não enfrentá-los. Estão aí, prontos para oferecer uma oportunidade de ascese. E nessa hora, principalmente, quando as certezas se confundem e a esperança sai para uma voltinha, ainda assim eu posso gritar - mesmo em silêncio - do fundo do meu coração: Meu Deus, Meu Deus!!!

E Ele virá. Porque Ele sempre vem.

A autora, Maria Antonia Pires de Carvalho Figueiredo, é escritora, poeta e colaboradora de Ju Machado Escritório de Arte

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